6 de dezembro de 2012

Keita! L'héritage du griot - Dany Kouyaté (1996)


Burkina Fasso | Dany Kouyaté | 1996 | Drama
Língua: Francês | Legendas: Português e francês | IMDB
  96 min | 700 Mb

Keita! L'héritage du griot / Keita! O legado do griot
O velho griot Djeliba deixa sua aldeia do interior e se instala na residência da família Keita para realizar uma missão: a iniciação do menino Mabo nas tradições familiares, cuja origem remonta a Sundjata Keita - o fundador do Império do Mali.  Mas as diferenças entre a memória preservada pela oralidade e a história ensinada a Mabo na escola geram um clima de tensão entre o valor da tradição e as exigências da sociedade africana moderna. O foco da tensão será a divergência entre o conhecimento histórico ensinado na escola e a memória história preservada pelos tradicionalistas.












KEITA! O LEGADO DO GRIOT: A ESTÉTICA DA PALAVRA À SERVIÇO DA IMAGEM
                                                                                                                                            Joseph Paré
(Universidade de Ouagadougou)
 
As produções literárias e cinematográficas dos africanos têm traços comuns no plano estilístico e temático, embora apresentem distinções do ponto de vista de sua origem.
Na esteira de Batouala, primeiro romance genuinamente africano – pelo qual René Maran recebeu o prêmio Goncourt em 1921 -, as obras literárias apresentaram-se como uma contra-literatura. Tratava-se de propor uma visão da África diferente daquela que aparecia nos romances coloniais, dominados por estereótipos do negro que acabavam por sustentar a propaganda colonial. Tratava-se de ir na contra-mão de um discurso e de uma visão de mundo que infantilizava o negro, atribuindo-lhe o estatuto de um ser inferior. Da mesma maneira, o aparecimento do cinema africano – o primeiro filme, Mouramani, foi realizado por Mamadou Touré em 1955 – inscreve-se na perspectiva da contestação às imagens difundidas pelo cinema colonial. Este foi desde o princípio um cinema iconoclasta que teve por ambição a descolonização das telas e sua africanização. Ainda hoje, os cineastas africanos tem por objetivo produzir obras centradas nas realidades da África pós-colonial, realizando filmes que constituam um meio de apreciação da situação real dos indivíduos.
Para os africanos, a literatura e o cinema tornaram-se armas contra a alienação depois de anos de “domesticação”. Sua estratégia consiste numa indigenização das produções artísticas, de modo a oferecer a imagem daqueles a quem elas se destinam prioritariamente. Assim, tanto do ponto de vista temático quanto estético, estes dois modos de produção artística recorrem à estética negro-africana. Na literatura, isto se traduz por um mergulho na aventura do escrito, do que são testemunhos romances como Les soleils des independences (O sol das independências) de A. Kourouma ou Le boucher de Kouta (O açougueiro de Kouta) do falecido Massa Kaman Diabaté. No cinema, os realizadores produziram obras empregando línguas locais com legendagem para o francês ou outras línguas não-africanas. É o caso dos filmes Mandabi (O mandato, 1968) e Finyè (O Vento, 1982) de Souleymanecissé. Estas convergências permitem supor que se produziu na literatura e no cinema uma reapropriação cujo projeto neguentrópico é manifesto.
O filme de Dani Kouyatê Keita! L’Heritage du griot (Keita! O legado do griot) (1995) inscreve-se nesta movência da estética da reutilização. Nela, não é apenas a língua empregada na realização do filme que está em jogo, mas convém considerar igualmente os códigos estéticos segundo os quais se efetua a narração. Mais do que em outros filmes desse gênero, o de Dani Kouyaté radicaliza a reutilização da estética tradicional: o personagem do griot permite ao realizador tornar complementares as possibilidades narrativas, autenticando ao mesmo tempo a estética da reutilização. Concretamente, abordaremos o filme de Kouyaté concentrando a atenção no que chamamos de dimensão auricular da narração fílmica (CASETTI, 1999, p. 271). Nosso propósito é pôr em relêvo a maneira pela qual a oralidade se apropria da narração, decodificar os códigos narrativos e a arqueologia do discurso que funcionam como modulador. Mesmo que a oralidade não seja mais do que um simples aparato, opera-se uma mediação entre a palavra e a imagem. Esta mediação nos permitirá render conta da eficácia da estética da palavra. 

 
              A RECONTEXTUALIZAÇÃO DA ORALIDADE

Como produzir filmes que, destinados à distração do público, permitam uma tomada de consciência dos africanos em face das dificuldades da África pós-colonial? Como fazer para que o rico patrimônio da África antiga possa ser reutilizada como potencial de inspiração para a elaboração de uma estética que dá especificidade ao perfil do cinema africano? Como se apoiar nas lições e ensinamentos do passado dos africanos para exemplificar as vias de constituição de uma personalidade africana hoje dividida entre a fidelidade às tradições e as exigências da modernidade? Os cineastas africanos procuraram responder a algumas dessas exigências, e em função delas é que seu projeto cinematográfico foi estruturado.
Na resolução destas equações foram exploradas diversas vias. Não obstante, de maneira geral pode-se considerar que os cineastas adaptaram as técnicas modernas do cinema, conjugando-as com modalidades de organização da narrativa inspiradas em elementos da estética negro-africana. Deste modo, promoveram a convergência de técnicas que pertenciam em princípio a esferas distintas. As técnicas da narrativa oral não são fundamentalmente as mesmas das narrativas utilizadas no cinema. Os meios colocados em prática pelo tradicionalista diferem dos do cineasta (movimentos de câmera, diferentes tipos de planos, etc): “Enquanto o primeiro enuncia sua narração encarnando cada um dos personagens, dominando a narração por sua presença, o realizador, ao contrário, utiliza os meios técnicos de reprodução para dar forma à sua narração. Onde a oralidade fala da vida, o cinema reproduz uma impressão de vida” (DIAWARA, 1996, p. 210). Como o cineasta africano procede para conjugar esses dois regimes? Como Dani Kouyaté recontextualiza a epopéia de Sundjata em seu filme?
O uso da imagem e do som para recontar uma narrativa oral produz como mencionamos acima um efeito de descontextualização porque nesta tentativa acabam sendo sacrificadas certas modalidades de produção da narrativa típicas da oralidade quando estas se fundem com as técnicas do regime do som e da imagem. Por exemplo, o narrador tradicional acaba no novo contexto tornando-se um mega-narrador devido à reunião de elementos narrativos dos diferentes regimes semióticos que se encontram articulados. A descontextualização acaba por promover uma recontextualização da epopéia, que encontra por meio do filme um novo modo de existência. Antes de examinar o conjunto da estratégia que permite a recontextualização da epopéia de Sundjata, convém indicar em suas grandes linhas a maneira pela qual Dani Kouyaté, na esteira de Djibril Tamsir Niani e de  Massa Makan Diabaté, retoma a narrativa de Sundjata em seu filme.
Após ter um sonho com o caçador que anunciara a vinda ao mundo de Sundjata, Djéliba Kouyaté decide ir à cidade para ensinar a Mabo Keita, descendente longínquo do imperador Sundjata, sua origem. O objetivo da viagem é dar a conhecer ao menino sua árvore genealógica. Na condição de griot a serviço dos Keita, Djéliba recoloca na ordem do dia uma antiga tradição. Ele ressuscita a memória do passado. Mas ao mesmo tempo ele se dá conta da dificuldade de tarefa pois logo percebe que pesam sobre o jovem as exigências distintas daquelas da sociedade tradicional. Com efeito, já na primeira conversa com o Mabo Keita ele descobre que na escola lhe ensinam que seus ancestrais são os macacos! Ele conta-lhe então sua verdadeira origem ao narrar a epopéia de seu ancestral, Sundjata Keita.
A este iniciação se opõem a mãe e o professor de Mabo, segundo os quais o jovem estudante poderia ser prejudicado nas provas escolares. Contra todas as probabilidades, Mabo se apaixona pela narrativa das origens e passa a negligenciar o que lhe é ensinado na escola moderna. Graças a Djéliba ele conhece uma parte de suas origens, mas não tudo porque, em virtude da oposição da mãe e do professor, o griot acaba sendo obrigado a partir sem terminar de narrar o conto. É neste momento que reaparece no filme o velho caçador cujo aparição em sonho tinha motivado a ida de Djéliba à cidade. Mabo, que deseja conhecer o significado do seu nome, pede ao caçador que lhe conte o fim da história de Sundjata mas este se recusa argumentando que não era um griot, quer dizer, um mestre da palavra como Djéliba. O filme termina com imagens simbólicas onde aparecem um pássaro voando no alto do céu (Djéliba?) e uma grossa árvore de baobá... O filme é construído a partir da idéia da oposição tradição/modernidade, mas não se trata de uma oposição irredutível. Ao contrário, todo o cenário sugere a possibilidade de uma convergência. A recontextualização se inscreve nessa perspectiva, como se poderá constatar adiante.
Dani Kouyaté devolve ao mestre da palavra seu papel e seu estatuto, fazendo dele o condutor da narração. Assim, a arte da palavra encontra-se à serviço da imagem e do conto para imprimir à narração e ao cenário do filme uma dinâmica particular.
A epopéia de Sundjata é descontextualizada: na tradição mandinga, trata-se de um conto falado pelos griots segundo um protocolo narrativo bem preciso que o filme não retoma. Dani Kouyaté contenta-se em colocar em cena aspectos essenciais do conto épico, notadamente tudo o que diz respeito às previsões sobre o futuro de Sundjata. Mas ao mesmo tempo, ao retomar a epopéia e inscrevê-la na dinâmica dos filmes africanos dedicados às grandes figuras da África pré-colonial, ele a recontextualiza. Isto ocorre tanto na maneira como ele trabalha os dados da epopéia no filme quanto pela maneira como recoloca na ordem do dia aspectos pertinentes ao conto de Sundjata para a formação do jovem Mabo Keita. Assim, pode-se considerar que se vai de uma situação de desterritorialização à de uma reterritorialização graças à conciliação entre as estéticas do cinema e da oralidade.
Djéliba começa a iniciação de Mabo filiando sua árvore genealógica ao célebre imperador cujas ações foram certamente engrandecidas pelo mito mas que continua célebre na história mandinga como o promotor da unificação dos povos do Sudão ocidental e a criação do Império do Mali nos séculos XIII e XIV, império que englobava as atuais repúblicas do Mali e da Guiné, e partes da bacia dos rios Níger e Senegal, até o Oceano Atlântico.
Para além do que diz o mito e do que os historiadores preservam da figura de Sundjata, o que nos interessa aqui é a maneira pela qual a palavra se coloca como um dos fatores essenciais da narração, a maneira pela qual a estética da palavra serve ao mito em perspectiva didática. Ela permite por em ação um conjunto de símbolos que podem servir de referência ao indivíduo na sociedade. Ao fazer isso, ela permite ensinar ao jovem sua árvore genealógica e também um certo número de valores, como a bravura e a honestidade, o respeito à palavra dada, a paciência e a irreversibilidade do destino individual de cada ser humano. Assim, quando Mabo mostra-se impaciente diante da demora em se cumprir o destino particular de Sundjata tal qual tinha sido previsto pelo caçador, Djéliba lhe pede que tenha paciência porque tudo o que está anunciado acaba por se realizar, e lhe diz: “uma árvore gigante nasce de um grão”. Aqui, a palavra proverbial parece a única capaz de fazer compreender a virtude da paciência.
Este ensinamento articulado sobre o verbo permite ao menino tomar consciência da importância de sua origem que deve participar da formação de sua personalidade e lhe permitir aceder ao estatuto de “[mogo, quer dizer, ser humano consciente de suas obrigações” (KEITA, 1995, p. 40). Esta palavra não é mais como as outras: ela assume uma função ética e estética na narração. É uma palavra eficaz, a “Grande palavra”, “[capaz de dar vida à toda coisa. Palavra eficaz na medida em que remonta às origens, palavra transmitida, saída de uma longa linhagem de  iniciados; ela cria, metamorfoseia, torna-se força e ação... Reincarnada, ela é repetida para que se torne plenamente eficaz”(HOURANTIÉ, 1990, p. 12).
É esta dimensão da palavra que torna possível a convergência entre o cinema e a oralidade. A epopéia de Sundjata é restituída por um lado pelo personagem do griot, e por outro pela criação de um novo contexto que justifica o recurso a ela (no caso, a situação do jovem citadino Mabo), o que permite fazer aflorar dois objetivos perseguidos pelo cineasta. Primeiramente, o griot retoma o papel que lhe cabe na sociedade africana, onde ele é considerado ainda em nossos dias como o que perpetua a memória coletiva. De resto, o próprio Dani Kouyaté indica que sua criação cinematográfica inspira-se na do griot, cuja “técnica permite ao griot de ir a fundo no imaginário, mesclando realidade e ficção” (KOUYATÉ, 1995, p. 11). Em segundo lugar, o encontro da oralidade com a imagem vem a constituir um meio de legitimação do filme de Dani Kouyaté e, por extensão, do cinema africano, em que um dos propósitos é incentivar a tomada de consciência, indicar as vias de conciliação entre a tradição e a modernidade.
Em outros termos, por meio dessa recontextualização o cineasta reatualiza “[a missão ética da sabedoria do griot” (BARLET, 1996, P. 180). Mas para tornar funcional a epopéia recontextualizada e lhe permitir servir aos desejos do cineasta, este precisou recorrer a modalidades particulares de narração, proceder a uma estética da reutilização de códigos narrativos tradicionais e de uma arqueologia do discurso. 

 NOTAS
NIANI, Djibril Tamsir. Sundjata ou  a epopéia mandinga. São Paulo: Editora Ática, 1984; DIABATÉ, Massa Kakan. Le Lion à l’arc. Paris: Hatier, 1986.

OBRAS CITADAS
BARLET, Olivier. Les cinemas d’Afrique noire. Le regard em question. Paris: l’Harmattan, 1996.
CASETTI, Francesco. Les théories du cinema depuis 1945. Paris: Nathan 1999.
DIAWARA, manthia. “Popular culture and oral tradition in african film”. In: BAKARI, Imrah; CHAM, Mbaye (dir). African experiences of cinema. London: British Film Institute, 1996, pp. 208-214.
HOURANTIÉ, Marie-Josée. “L’introduction de La technique du conteur dans le théâtre-rituel negro-africain”. In: Seminaire de methodologie de recherche et d’enseignement du conte africain. Abidjan: Nouvelles Editions Africaines, 1990.
KEITA, Cheick M. Chérif. Massa Makan Diabaté. Un griot mandingue à La recontre de l’écriture. Paris: hartmann, 1995.
KOUYATÉ, Dani. “Recontre avec Dani Kouyaté”. Le film africain, nº 18-19, 1995, p. 11. 
 
Tradução parcial feita por José Rivair Macedo
O texto original completo (em francês) encontra-se em: http://id.erudit.org/iderudit/024833ar

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Agradecimentos a José Rivair.

7 comentários:

Fábio Luis Siquera Miranda disse...

Parece ser ótimo..

Zelinda Barros disse...

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Jama Libya disse...
Este comentário foi removido por um administrador do blog.
Cesar S. Farias disse...

Achei o filme bastante interessante após recentemente assistí-lo. Aborda o eterno choque de culturas que existe na maioria das sociedades.

Queila Oliveira disse...

Puxa, minhas legendas vieram apenas em Francês, não consegui em Português. Aconteceu isso com alguém? Peço ajuda!

Rebeca Oliveira Duarte disse...

Também tô tentando baixar com legenda em português... ou não tem?

Unknown disse...

"meu filho, o saber tem muitos sentidos. o saber é inesgotável, ele é complexo. ele pode estar no sopro dos ancestrais, no milho e na areia. ele é transmitido dos espíritos aos homens, e dos honens aos espíritos"

Que filme incrível! Muito obrigado pelo upload!