25 de novembro de 2012

Angola | Maria João Ganga | 2004 | Drama
Língua: Português | Legendas: Inglês |
IMDB
  90 min | 1,08 Gb
Na cidade vazia
Em 1991, um grupo de crianças refugiadas de guerra, acompanhadas por uma freira, seguem num vôo rumo a Luanda, capital de Angola. Ao chegarem ao aeroporto, N’dala, um menino de 12 anos, consegue fugir do grupo e procura encontrar uma forma de voltar à sua aldeia, onde pretende reencontrar os pais, que estão mortos. Em sua jornada, entra em contato com diferentes personagens que, cada um a seu modo, experimentam as vivências da grande cidade, em meio à conturbada situação política de Angola e os efeitos da guerra para seus habitantes.
É o primeiro filme feito por uma mulher angolana, o segundo feito em Angola após a guerra.

 





Entrevista com a diretora (Fonte: Angola Digital
Rubrica 'Foi Há Um Ano': Carlos Gonçalves conversou com a realizadora Maria João Ganga, um dia depois de terminar o seu filme "Na Cidade Vazia”, em Fevereiro de 2004. Uma conversa em Lisboa sobre o cinema angolano. 

Pergunta: Vinte e quatro horas depois de ter acabado o filme ‘Na Cidade Vazia’, como é que se sente a realizadora?
Resposta: … Aliviada. Sinto-me feliz, sabes que este projecto levou muito tempo a ser concretizado, pelo menos doze anos desde que o escrevi. Há sobretudo um sentimento que me vem à cabeça que é o da persistência. E o alívio vem sobretudo pela necessidade que há de fazer ressurgir o Cinema lá em Angola.

P: Sentes isso como uma nova era para o nosso Cinema?
R: Sim, eu penso que estou a contribuir. É claro que não tenho um barómetro para te dizer se estou a contribuir com qualidade, apesar desta ser a minha intenção. Repara que este projecto foi escrito em 91. Agora terminado, sim, sinto-me realizada, no sentido de dar uma contribuição para esse projecto de renascimento do nosso Cinema.

P: Quais são os grandes momentos desse projecto?
R: Sem dúvida o início é um momento marcante, quando dei a primeira voz de Acção, senti que tudo era irreversível. Foi seguramente um dos momentos mais felizes da minha vida.

P: E o público de Luanda como é que reagia às filmagens e às locações?
R: Bom, Luanda é a cidade que nós conhecemos, está abarrotada e superlotada e as cenas do meu filme era suposto passarem-se em 91, altura em que havia o recolher obrigatório, tu já não tens recolher obrigatório há muitos anos. Foi complicado, tivemos que fazer um apelo à Policia para fechar as ruas, porque as pessoas eram atraídas pelas luzes e por todo aparato cénico, agora acho que as pessoas foram de um comportamento digno e muito civilizadas…
Tens sempre um ou outro engraçadinho que procura dar nas vistas, como em todo o mundo, mas foi de um modo geral um ambiente fantástico. Olha, há um décor a qual faço referência particularmente que é ali no “Hotel Luanda”, junto ao Museu de antropologia, onde as pessoas colaboraram imenso ao ponto de eu ter figuração no filme de pessoas que ali mesmo se ofereceram para participar e acarinharam-nos sempre, apesar das imensas dificuldades que tem para viver ali, queriam pôr-nos nas suas casas de pequenos quartos para descansarmos, há uma senhora que apercebendo-se da minha fome foi grelhar um peixe para mim, foi mesmo fantástico.

P: Estamos aqui perante uma primeira ironia do filme. Falaste de uma cidade superlotada, de um filme que se chama Na Cidade Vazia…
R: Exacto.

P: É um percurso de ironia que vai marcar o filme todo…
R: …Eu tento sempre abordar o vazio que existe na nossa sociedade. Havia o vazio que o recolher impunha, mas também o vazio das pessoas, uma espécie de perdição…que ainda hoje se sente.

P: Na época em que trata o filme, as pessoas eram dominadas por esse espírito de evasão…
R: … Mas que época? Lá está, para mim nada mudou, antes pelo contrário, esse estado de evasão acentuou-se. Haverá por ventura pessoas que hoje não dormirão, por não ter referências da passagem do tempo actualmente. Repara as pessoas perguntam-me, porque um filme tão violento, com a realidade tão crua.
É claro que as pessoas procuram no cinema o lado cor-de-rosa que eu não pude dar, porque entendo que nesta fase o Cinema deve abordar com profundidade os nossos problemas, mostrar o nosso modo de ser, as coisas porque passamos.

P: Entendes o Cinema como essa força de expressão e de intervenção social absoluta.
R: Sim, completamente. Aliás, é em todo o mundo e em Angola não será diferente, justamente por isso é que sinto orgulho em participar desse renascimento do Cinema Angolano, que nesta fase deve servir para despertar mentes, pôr o dedo na ferida e tratar algumas questões com a seriedade que eles exigem.

P: O teu filme é-nos apresentado pelos olhos de uma criança, mas tem lá outras gerações. Ele correspondeu, do ponto de vista emocional, ao que querias?
R: Completamente. Como actor é uma criança com quem trabalhei bastante tempo e que sentiu aquilo que estava a viver. Tratando-se de uma criança de rua, ele não deixa de estar muito próximo dessa realidade, desses problemas que as crianças enfrentam numa sociedade como a nossa, o que em parte se calhar facilitou o meu trabalho.

P: Como é que esperas que as pessoas reajam ao filme, enquanto um momento de cinema?
R: … Há pouco falava do barómetro. Eu fiz algumas experiências com a cópia zero do meu filme, mostrei-o a diferentes pessoas da nossa diáspora em Lisboa, mostrei aos actores, a pessoas do Ministério das Finanças e da Cultura, ou seja, a grupos específicos em Luanda. Porquê?
Primeiro porque precisava de dinheiro para acabar o filme, depois a minha grande preocupação enquanto realizadora do filme, que é mostrá-lo lá em Angola exactamente, para que cada um de nós possa reviver o passado, um passado que se mistura muito com o presente…

P: … Mas como é que reagiram essas pessoas?
R: Bom, as pessoas ficam um pouco chocadas com o fim do filme e com alguma carga de violência que o filme comporta, mostram um misto de surpresa e espanto, mas também uma satisfação por estarem a ver um filme angolano. E isso é uma grande compensação que eu tenho, porque há momentos no filme com o som do Paulo Flores e do Eduardo Paím, os sítios que conhecemos, etc. Então as pessoas reconhecem-se no filme e vivem de certa forma o momento e isso é emocionalmente compensador.

P: Tens tido ao longo dos anos, nomeadamente com o teatro uma relação com as instituições que regem esses domínios, como é que vai ser para ti fazer cinema daqui para frente?
R: É uma coisa que me assusta, porque eu gostava de fazer mais cinema, mais rápido. Ou seja, trabalhar de forma regular. Preocupa-me algumas mentalidades.
Repara, nós estamos a falar de fazer renascer alguma coisa, fala-se em Angola de um projecto novo para o cinema, então eu espero que isso seja verdade, que seja sério, que as pessoas se impliquem nisso, que procurem ter conhecimento de como o cinema é feito, que caminhos é que deve percorrer, respeitar as regras do jogo, não basta só dar dinheiro.
Vamos ver como é que as coisas correm a partir de agora, em que surgem essas três novas produções de realizadores nacionais, ver sobretudo como reagem as pessoas que têm o poder de decidir e o poder financeiro, porque sem esse apoio não pode haver cinema.

P: Existe algum sentimento de classe do cinema, para conversar com quem decide as melhores condições para o desenvolvimento da sétima arte em Angola?
R: Há pessoas que gravitaram sempre à volta do cinema, existe também um sentimento, quanto mais não seja, de frustração, por não se poder realizar projectos. Mas há também muita vontade em seguir em frente, com novos projectos, temos é que passar à prática: criar uma Lei de Cinema, criar uma Associação de Cineastas angolanos, em fim criar programas concretos que permitam viabilizar a actividade cinematográfica.

P: Quando é que vais mostrar o teu filme ao público?
R: Olha, com grande frustração minha vou mostrá-lo primeiro em Roterdão onde fui seleccionada para o festival. É claro que para mim a grande noite, a grande estreia, será mostrá-lo em Luanda, repara que neste momento, não sei como, aonde, em que suporte e em que condições vou fazê-lo.
É claro que é um sentimento terrível. Agora, Roterdão é muito importante, é dos mais respeitados festivais do mundo, onde vou encontrar importantes cineastas, produtores, pessoas que ajudaram a financiar esse projecto e que poderão mostrar interesse por outros. Não podes querer fazer cinema e não estar no meio né. Puxa, Roterdão é Roterdão!

P: Há outros contactos…
R: É espantoso como a informação passa, como grande parte dos países africanos, por exemplo, estão organizados ao ponto de saberem que o filme já está feito e mostram interesse por ele, fazem propostas concretas. Temos neste momento já uma boa carteira de Festivais em agenda.

P: Voltando a Angola. Como é que entendes hoje a correspondência de hábitos entre fazer e ir ao cinema?
R: É uma boa questão. Sabes uma coisa, as pessoas das camadas mais desfavorecidas, adoram ir ao cinema e vão ao cinema. Agora o que elas vêem são aquelas coisas baratas, os karatés, etc. Falta-nos rigor na selecção do que mostrar às pessoas, ora elas vão ao cinema e vêem tudo o que lhes é proposto.
Quer dizer, não tenho dúvidas de que as pessoas vão ver o meu filme, faz parte dessa magia que tem o cinema, mas para uma certa classe, digamos de interessados, vão a uma estreia, depois não vão mais porque as salas não têm condições, é gente que prefere ver o seu vídeo em casa, aí sim, tenho um ponto de interrogação, se calhar vou ter de fazer uns DVDs para os que tanto gostam, mas que não vão às salas porque ainda tens quem vai ao cinema para conversar e ouvir rádio e dormir com os pés em cima dos outros.

P: Aí, na sensibilização do espectador e na divulgação a TPA pode ser um grande aliado.
R: Sim, tem um papel fundamental, apesar de eu estar um pouco frustrada com o papel da TPA com o meu filme. Nós até temos um convénio para este filme, mas é sempre complicado disponibilizarem os meios, é sempre complicado entrar na TPA, podes ficar até duas horas na porta, falta alguma consciência de colaboração. Não digo isso com ofensa, compreendo que a falta de prática de relacionamento com o cinema faz essas coisas. Agora, o filme está feito, divulgá-lo será mais fácil.

P: Quem é que está contigo neste filme?
R: Uma grande equipa. Vou confessar-te uma coisa, há um momento de grande tristeza, quando senti que não podia contar com técnicos angolanos, claro está que com o cinema não se pode facilitar. Quando pensas num director de fotografia, onde que ele está? Há um bom, que é o Oscar Gil, mas quando comecei já não foi possível chegar a acordo com ele e nessa altura tinha já um contacto com o Jacques Best que tinha estado em Angola com o Abderrahamane Sissako, porque com a equipa técnica não podes correr riscos, têm de estar bem rodados. E quando eu vou para uma primeira experiência em cinema, tenho de ter os melhores profissionais comigo, porque não pode haver hesitações.
Mesmo quando fiz um apelo à gente que veio do teatro como eu, essas pessoas perceberam logo que o cinema é outra coisa, com outro rigor e o seu empenhamento, traduz-se hoje numa grande recompensa, estamos a falar não só de actores, como de gente da produção, da electricidade, etc…toda a gente deu do seu melhor.

P: Os actores sobretudo, não estranharam o meio?
R: Olha, nós em Angola temos pessoas sobredotadas, pessoas com muita vontade de trabalhar, é obvio que eu que trabalhei doze anos com a grande maioria daqueles actores, não me imaginava a fazer um filme sem eles e a resposta que eles deram é excelente. Pena é que não possam ter formação adequada, primeiro em teatro e depois havendo cinema, poderem trabalhar em cinema.

P: Depreendo que gostas do resultado final.
R: Gosto. Gosto muito. 
Por favor, semeie! Semear é muito importante para que outras pessoas tenham acesso ao filme.
Agradecimentos da postagem a José Rivair e mfcorrea. 

2 comentários:

Arte disse...

Amei, pelo percurso do N'dala, o espectador pode fazer uma viagem ao longo da Realidade Angolana. O dia-a-dia das pessoas o espírito Angolano o acompanha ao longo da sua aventureira volta à sua aldeia, aldeia essa que em que ele nunca consegue chegar...

eric disse...

Simplesmente fantástico!!!!!!!!