17 de março de 2011

Rachid Bouchareb - Hors-la-loi (2010)

Argélia/França | Rachid Bouchareb | 2010 | Drama/Policial | IMDB
Árabe/Francês | Legenda: Português/Inglês/Francês
138 min | XivD 720x306 | MPEG 1 192 kb/s | 24.000 fps
1,928 GB

Hors-la-loi / Fora da lei
A luta pela libertação argelina vista através das vidas desavindas de três irmãos que são expulsos da Argélia com a mãe, após o massacre de Sétif em 1945. Massoud (Roschdy Zem) alista-se para a guerra da Indochina, Abdelkader (Sami Bouajila) lidera o movimento independentista argelino radicado em Paris e Saïd (Jamel Debbouze) faz fortuna nos clubes de boxe… Só o amor da mãe e a libertação da terra natal farão com que três homens com destinos tão diversos se reencontrem. Foi indicado ao Oscar como Melhor filme estrangeiro.







Crítica

Há muitas formas de se tocar numa ferida histórica. Ocorre-nos, por exemplo, a obra de Guillermo del Toro, El Laberinto del Fauno, ou o fenómeno mediático Der Untergang. O cinema americano, cujas máquinas mainstream e indie têm trazido, à luz do dia, estudos dolorosos em torno da história recente dos Estados Unidos, é especialmente pródigo na reavaliação de episódios históricos sensíveis e indigestos, próximos ou longínquos. O sobrestimado Hurt Locker, de Kathryn Bigelow, é um exemplo da construção contínua da memória operada pelas artes visuais americanas. Não é isso que se passa em França, aparentemente (à imagem de Portugal, acrescente-se). O burburinho causado por Hors la Loi, filme abrupto e irreflectido de Rachid Bouchareb (Indigènes), em Cannes e na cena intelectual francesa é uma consequência da sua raridade.

A história de três irmãos, Saïd (Jamel Debbouze), Abdelkader (Sami Bouaijla) e Messaoud (Roschdy Zem), injustamente expulsos das suas terras pelas forças colonizadoras e respectivo caudilho, é o tema narrativo essencial desta história simplista. Apesar da insistência na guerra pela independência da Argélia, trata-se de uma saga familiar pura, com um toque muito suave de film noir, que pretende contar a história da geração que viria a perfilhar os chamados beurs (não usamos o termo de forma inocente). Obrigados a abandonar a Argélia, os três irmãos tomarão caminhos diversos, mas voltarão a encontrar-se. Nada de novo ou inovador, por aqui. Abdelkader, o prototípico intelectual independentista, transporta, consigo, a marca incandescente da FLN, facção radical que viria a adquirir, nos anos 1990, uma notoriedade acrescida; vemos, no seu semblante, a mesma hesitação inicial de Michael Corleone e, de forma menos hábil que n’ O Padrinho II, uma metamorfose completa, que se completa na catarse final. Saïd, trancado na figura demasiado marcada de Jamel Debbouze, pretende tornar-se um membro de pleno direito do banlieu e, numa cena particularmente reveladora do desinteresse de Bouchareb pelo desenvolvimento da narrativa e das personagens, torna-se, após uma curta conversa com alguém de gabardina negra, proxeneta, depois empresário de um pugilista e, por fim, alvo da FLN. Assim. Sem mais nem menos. Pouco interessado nas diatribes politizadas de Abdelkader, Saïd prefere amealhar todos os francos que pode, ao alheio do combate da FLN. As consequências serão, já se vê, desastrosas. Messaoud, a personagem mais interessante de todo o filme – o semblante de Zem contribui, e muito, para a sensação de profundidade –, acaba por achar-se num campo de prisioneiros, em plena Indochina, deixando que um altifalante plante, no seu âmago, as sementes da luta. Em breve, Messaoud ver-se-á a braços com a proverbial tensão entre imperativo moral e dever patriótico. A relação entre Abdelkader e Messaoud é especialmente confrangedora: não surge um diálogo ou uma alusão às posições de cada um, na cena que seria, provavelmente, o epicentro emocional do filme. Ou seja, o olhar de Zem não é devidamente aproveitado por Bouchareb e a figura de Abdelkader aproxima-se da caricatura panfletária.


Eventualmente, os três irmãos são obrigados a optar entre a fraternidade sanguínea e a comunidade imaginada pela FLN. Uma tragédia seguir-se-á. Estamos nos anos 1950 e os acordos de Evian ainda distam alguns meses sangrentos. Mas Bouchareb crê que a narrativa não necessita de outra conclusão.


O problema não é de Hors la Loi. É do outro filme. Toda a gente que se interessa pela história da libertação da ocupação imperial no continente africano sabe de que falo. Claro, da obra de Gillo Pontecorvo, A Batalha de Argel. Da potência demolidora de uma das maiores obras cinematográficas do século XX. Em comparação, a miscelânea de géneros tentada por Bouchareb parece-nos sensaborona. Embora os planos sobre o massacre de Sétif sejam sugestivos, o realizador exagerou nas fórmulas e não abordou o material com a agressividade que seria, talvez, necessária. Ainda que esta seja, acima de tudo, a saga de uma geração esmagada pela história – as tensões recentes nos arrondissements parisienses derivam, em parte, deste esmagamento –, é demasiado sensaborona e experimentalista no pior dos sentidos. Ou seja, procura misturar o film noir, a saga familiar e o melodrama, sem mostrar algum cuidado com as personagens e a riqueza do contexto.


Percebemos, de fora, por que razão Hors la Loi motivou um debate tão aceso e animou Cannes. Não foi a proficiência de Bouchareb, mas o poder do cinema, capaz de torcer a lâmina dentro de feridas históricas e episódios mal resolvidos, como o massacre de Sétif (cuja filmagem é uma das genuínas originalidades deste filme). Quando, por estas bandas, nos decidirmos a ficcionar a ocupação colonial, talvez ocorra um fenómeno semelhante. De preferência, com uma realização mais subtil e atenta.


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Créditos do arquivo a mfcorrea, no MakingOff.

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