14 de fevereiro de 2011

Mweze Ngangura - Pièces d'identités (1998)


Bégica/França/República Democrática do Congo | Mweze Ngangura | 1992 | Comédia | IMDB Francês/Wolof | Legenda: Português
  97 min | XviD 720 x 448 | MPEG1/2 L3 139 kb/s | 29.970 fps  
1.36 GB

Pièces d'identités / Documentos de identidade 
Mani Kongo é o rei dos Bakongo. Sua filha única, Mwana, foi enviada com a idade de 8 anos para a Bélgica para estudar medicina, mas o contato entre os dois foi perdido. Mani Kongo decide viajar sozinho para a Europa à procura de sua filha amada e, ao chegar lá, irá se deparar com o melhor e o pior da diáspora africana, bem como os preconceitos da sociedade européia. Acabará por descobrir que nada é completamente negro ou branco...

Um filme dedicado à diáspora africana, na forma de uma interessante comédia. Ganhou o prêmio da escolha popular no Denver International Film Festival de 1999 e vários prêmios no Fespaco (Ouagadougou Panafrican Film and Television Festival) do mesmo ano (Award of the City of Ouagadougou; Best Actress (Dominique Mesa); Grand Prize - Etalon de Yennega; IBP/CICIBA Award; OCIC Award).




 

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Crítica: As desilusões de um sábio africano
por Jean-Servais Bakyono

Apresentado em estréia mundial, em março de 1998, à oitava edição do Festival de Cinema Africano de Milão, Pièces d'identités obteve o prêmio do público, sinal do suscesso popular de uma obra na qual transbordam o riso, a emoção e a poesia. Construído de acordo com as convenções da comédia dramática conduzida em uma trama policial, o filme relata em um tom agridoce a história de um velho rei africano, Mani Kongo, personagem encarnado por Gérard Essomba, um dos destaques do cinema camaronês. Retratado como uma figura emblemática da África tradicional, o velho rei desembarca em Bruxelas para procurar sua filha Mwana que aí se encontra há vinte anos por causa de seus estudos, sem dar sinal de vida. A alfândega exige dele uma taxa de importação por ver sua touca, seu colar de pérolas e seu cetro entalhado em madeira rara como obras de arte. Ele concorda.

Sua viagem se ordena em um caminho iniciático que percebemos como a metáfora da perigosa marcha da África em direção à modernidade. Suas ilusões a respeito do modelo cultural ocidental se desfazem ao contato com diferentes personagens que atravessam seu caminho em Bruxelas à procura da filha. Durante todo o seu périplo, as certezas que mantinha sobre as relações belgo-congolesas, são postas a duras provas. A câmera segue o olhar do velho rei através de Bruxelas, para pintar um vasto e nítido retrato das populações de imigrantes africanos. No vasto quadro tecido pelo cineasta se movem os personagens em confronto com os problemas de imigração e integração, os documentos de identidade, pretexto sutil para abordar a problemática através das relações norte-sul. Desde La vie est belle, seu primeiro longa-metragem, co-realizado por Mweze Ngangura e Benoît Lamy, (...) o cineasta faz da problemática tradição/modernidade, centrais em Pièce d'identités, sua temática preferida.

(...)

Ao final de sua longa viagem até o fim de suas ilusões, o rei toma consciência de que a tradição não é imutável. Ele se convence de que as mudanças deve ser operadas a partir de dentro. Lapidada aos poucos, a pintura social de Mweze Ngangura é iluminada pelo jogo de seus personagens filmados com muita ternura. Ele soube escolher os arranjos musicais certos para contribuir com este clima que dá a qualidade do filme.

Fonte e versão completa (em francês)
 
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Entrevista com o diretor: 
Entrevista de Olivier Barlet com Ngangura Mweze Montreal, 1998, e Genebra, 1999

A personagem desse rei é incrível! Com aquele chapéu, tem um forte caráter pessoal, ao mesmo tempo em que algo de ridículo para o Ocidente. Por detrás desta personagem, você queria falar da dignidade do sere humano?

Exatamente, na verdade, seu lado "ridículo" começa quando ele chega na África, para pegar seu bilhete: uma jovem pergunta-lhe de onde vem seu novo visual. Ao deixar o seu palácio na aldeia para chegar à cidade, é considerado um personagem folclórico com todos seus atributos reais, mas ele encarna tudo o que a África tem mais atual: além de seu terno europeu, vestiu os atributos que simbolizam o poder tradicional. Este mal-entendido vai continuar na sede da embaixada. A alfândega belga irá pedir-lhe para pagar impostos para a importação de obras de arte. O negociante de antiguidades belga pede a ele para hipotecar sua vestes reais por um pouco de dinheiro...
Todas estas peregrinações tem um aspecto simbólico: um questionamento sobre o lugar que ainda ocupa a tradição Africana no mundo moderno.
A conclusão disso é que no final do filme, o rei que tinha perdido os seus atributos no antiquário europeu encontra-se com a filha. Na verdade, uma mulher nunca poderia te-los tocado; a viagem do rei toma a forma de uma viagem iniciática: ele percebe que os tempos mudaram pois é graças à filha que ele será capaz de retornar para casa de cabeça erguida, e isso por causa de uma proibição que foi violada. 
Sua filha chega dizendo que não conseguiu seu diploma de medicina: ele responde que o curador irá completar seu treinamento, que não é preciso queimar etapas e que ele irá convocar o conselho de anciãos para discutir .
É, portanto, um símbolo do papel e do lugar de nosso passado naquilo que queremos ser amanhã.
 

É uma continuidade com relação Le Roi, la vache et le bananier que documentava o lugar do rei mwami.

Percebi que os documentários que realizei enquanto esperava para fazer este filme (8 anos!) foram um ensaio para o longa-metragem. Depois de La vie est belle, eu comecei a produzir filmes como Changa Changa, que falava da música e da mistura de culturas em Bruxelas. Então houve Le Roi, la vache et le bananier, reflexão sobre a tradição e a modernidade. Na minha cidade natal, o sistema real que ainda persiste é forçado a adaptar-se aos caprichos da vida moderna. Então, Les derniers Bruxellois em que um etnólogo Africano (que eu interpreto) vai visitar o bairro belga e o bairro de Marolles que é o dos nascidos em Bruxelas. Era como uma carta a um primo que ficou na vila perguntando como as pessoas vivem, o que comem, etc. Todos estes filmes não foram, no fim das contas, nada além de ensaios para o longa-metragem.


Na personagem do rei, há também uma espécie de incapacidade por parte da civilização ocidental de compreender e perceber como a realeza africana pode ter existido...

A Europa sempre viu nos valores culturais e espirituais africanos nada mais do que superstições ridículas ou folclore banal. O intercâmbio entre as culturas seria melhor empreendido se os europeus houvesse visto aí sido outra coisa além de antiguidades para negociar. A Europa é incapaz de aceitar a África como um continente que tem a sua dignidade, sua profundidade, mesmo na sua tão falada pobreza. É desta falha que eu queria falar.
O rei não é ridículo em si mesmo, são as pessoas em torno que o tornam assim. São os outros que são incultos. É apenas anacrônico, mas é sua função que o exige. Finalmente, é no bairro de Bruxelas onde ele encontra uma alma e uma dimensão humana.


Sua filha vai à deriva e retoma seu caminho através da relação com seu pai que reencontra, como uma espécie de ligação que tinha perdido, sua identidade inicial...

Nos anos 60, a moda para todos os ricos do Zaire era enviar seus filhos para estudar na Bélgica. Eles pariam nos chamados "aviões escolares". Naquela época, a maioria dos imigrantes do Zaire na Bélgica ou eram estudantes ou diplomatas. Atualmente a situação mudou muito, existem outros zairenses que vieram depois e estão verdadeiramente à deriva. Há atualmente jovens congolesas que se prostituem na Bélgica, é uma coisa que não existia antes. Os rapazes que vivem no "débrouille", que fazem cheques falsificados... Para o rei do Congo, chegar à Bélgica e descobrir este meio tem algo de inquietante e de angustiante.
Esta menina é desta geração: veio muito cedo e, gradualmente, sua situação se deteriorou. Ela não sabe como voltar. Seu pai que retorna será uma forma de resgatá-la (talvez porque eu gosto de finais felizes). Ela vai encontrar uma dimensão humana. Dito isto, tem uma personalidade forte, sabe dizer não quando necessário. É uma personagem com a qual jovens gerações africanas podem se identificar: eles se identificam com seus problemas e veem que ainda existem meios para responder a eles.


Há uma outra continuidade com o que você fez antes, é o olhar sobre Bruxelas, que não é desprovido de ternura. É esta maneira de tomar as pessoas como elas são e carregar um olhar sem julgamento.

Houve algumas pessoas que fizeram um comentário que eu achei superficial, dizendo que "nós não sentimos que reivindica algo." Na realidade, o que os africanos na diáspora reivindicam é que sejam olhados com dignidade e carinho, que lhes seja dada alguma consideração. Para mim, a melhor forma de receber amor é dar. Eu acredito que reivindico muito: não através de palavras de ordem, mas com as experiências dos personagens. De fato, no bairro Marolles, reconhecemos os personagens que eu filmei em documentários anteriores. Isso ajudou muito: como eram que eu já conhecia, pude pedir-lhes que desempenhassem seu próprio papel nos cafés de costume. Um segundo ponto em comum com os outros filmes: A Europa vista através dos olhos de um africano. É o ponto de vista do africano que é privilegiado.
 

Por que escolher um final feliz?

É preciso primeiro afirmar suas boas intenções! Então, em uma comédia, o final feliz é absolutamente essencial. Quando os espectadores estão ligados aos personagens, é sempre frustrante para eles isso acabar mal. Esta é uma das leis da comédia, mesmo no Molière, que tudo acaba bem. Aquele comissário branco que passa seu tempo caçando o jovem bandido mestiço... percebe no final que ele é seu filho. Isto significa que há no fundo de cada um uma humanidade comum, sem a nossa consciência. Esse final é uma lição, uma escolha que raramente acontece na realidade. Deve dar uma mensagem de esperança no final, dizendo que tudo é possível. É neste espírito que faço filmes!
 

 O personagem do arqueiro fez-me pensar neste romance de Modibo Keita: Bassari Archer, que luta justamente contra um comissário. Ele mata uma série de pessoas importantes no país... Encontramos algo bastante tradicional neste personagem do arqueiro justiceiro do mundo.

Sim, mas é tradicional nos contos africanos. Eu também acho que esse personagem super-herói é algo universal em nossa imaginação. Robin Hood ataca os bandidos para dar aos pobres... É o Batman, Don Quixote! É óbvio que este é um personagem que expressa sua infelicidade. É uma alma atormentada e ele precisa de se expressar através de suas ações e é isso que o salva. Finalmente, ele não é um bandido. Ele é visto no começo no taxi no aeroporto e se pensa: "o velho vai se dar mal". E então ele chega no Foyer d'Afrique e diz: "o senhor é o rei dos Bakongo, para o senhor é grátis". Eu dirigi o meu ator dizendo a ele que iria aparecer como um chefe, um bandido, um aproveitador, até a cena da chegada.


Em termos de produção e financiamento, o filme foi difícil?
 
Sim, o financiamento do filme foi muito difícil. Primeiro, porque há alguns anos atrás, nós concordamos não financiar uma filmagem de cinema africano na Europa. Frederic Mitterrand, que presidia o Fonds Sud, havia até mesmo me pedido para escrever uma carta de "desculpas" por fazer uma turnê pela Europa! Na Bélgica, foi-me dito: "Não se compreende bem por que esses personagens belgas e africanos são caricaturais." Isso apenas me ajudou a aperfeiçoar o que eu já tinha em mente. Eu reescrevi as relações entre os dois personagens, arredondando os cantos. Isso foi um ponto positivo para o cenário.
A produção me levou oito anos. Eu tive que refazer o elenco em todo momento, atualizar as coisas com um orçamento muito pequeno de 4,5 milhões de FF, que é muito pouco para um filme rodado em condições européias. Mas eu levei um tempo para escolher os melhores técnicos na Bélgica. Todos vieram porque eles adoraram o roteiro e a maioria colocou metade do seu salário em participação. Eles são todos um pouco co-produtores do filme.


Se tem a impressão de uma urgência do assunto: os cineastas lutam para impor filmes, apesar da falta de financiamento, quando tomamos a diáspora como tema e sua situação nas sociedades ocidentais.

De qualquer forma eu teria feito, até mesmo em vídeo! Eu tinha várias soluções de produção que poderia usar, mas tinha certeza que ia fazer este filme. Eu já tinha amadurecido o assunto, eu sabia o que tinha. Isso era algo que estava em mim.


Este sucesso foi uma grande surpresa?

Sinceramente, sim! Como é uma comédia africana que se passa na Europa, eu tinha medo de que os jurados a considerassem populare demais para ser recompensada. Mas eles tiveram a coragem de admitir que este filme é bem feito. Apesar do lado da comédia, o filme transmite realidades profundas e essenciais para a África moderna. Até agora, tinha-se uma certa idéia do que poderia ser um filme africano e Pièce d'identitésnão se enquadram totalmente dentro deste quadro. Talvez este júri também quis dar um novo rumo no cinema africano, ou pelo menos ampliar o escopo. Em Burkina Faso, as pessoas estavam convencidas de que meu filme ganharia o prêmio. O fato de que o filme teve sucesso com o público pode ter influenciado o júri. Para um Fespaco dedicado à divulgação do cinema africano, é para mim um bom sinal que a um filme para distribuição seja premiado. Dois dias depois, eu assinei um contrato com Sonacib, a empresa de distribuição de Burkina Faso, o filme arrecadou 2,5 milhões de francos CFA em dois dias, enquanto a média normal de entre 800.000 e 1 milhão. (...) Obviamente, existem problemas relacionados à rede de distribuição que foram resolvidas a nível nacional em Burkina Faso, mas se eu for para a Costa do Marfim, já se torna problemático. No Senegal, é possível. Se a forma pela qual a distribuição é organizada em Burkina Faso pudesse alcançar ao menos um nível regional ou a África Ocidental, seria algo grande para a África. Fui contactado por um distribuidor da Costa do Marfim, mas o montante proposto é muito baixo e, portanto, de novo, eu sei que se eu realmente quero ganhar alguma coisa com o filme eu sou obrigado a tratar país por país. Isso toma um tempo valioso e energia. Na realidade, a distribuidora indiana que me oferece uma ampla distribuição na África francófona baseou o seu preço de compra sobre os filmes americanos ou europeus, que já estão totalmente depreciados. Os filmes estrangeiros que são vendidos estão esperando mais lucro. É mais para ocupar um mercado e preparar um futuro melhor para a operação. Devemos entender que, para os filmes africanos, a África é seu único mercado. Mesmo na Europa, está se tornando cada vez mais raro que um filme africano faça um pequeno sucesso.


O que você acha que motiva o entusiasmo do público com seu filme?

Nós sempre nos esquecemos de que os africanos urbanos sonham em ir para a Europa ou já se foram. O fato de não ter descrito os europeus como todo-poderosos, mas como seres humanos comuns (pobres, ricos, gente simples) os interessou. Os europeus que vemos na África, especialmente nas ex-colônias belgas, eram todos ricos fazendeiros, médicos, empresários, administradores coloniais ou voluntários; todas as pessoas com um certo poder aquisitivo. Mesmo em uma aldeia, o representante de uma ONG terá sempre o melhor carro. Caso contrário, estou convencido de que o aspecto cômico do filme é na verdade é a atração principal, com uma montagem bem ritimada..


Você tem o sentimento de lutar para impor um cinema popular diante de um cinema mais cultural, com uma certa desvalorização da crítica?

Nunca senti-me em luta porque sempre pensei que fazer cinema popular, com uma estrutura narrativa simples e claramente acessível ao grande público realça o militantismo. Nunca senti como se estivesse lutando contra um outro tipo de cinema na medida em que faço o que gosto, o cinema no qual acredito. É algo difícil de aceitar que neste filme temos de estar muito próximos do espectador, não se pode dar ao luxo de descuidar da emoção. Filmes de detetive ou de comédia não são fáceis. Alguns críticos de cinema não veem o trabalho por trás disso. Então eu digo a mim mesmo que essas pessoas têm uma certa idéia da África e querem encontrá-la no cinema, uma idéia monolítica de África que ressalta mais os estereótipos exóticos do que a realidade.

Fonte (em francês)

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Um comentário:

Tadeu disse...

Obrigado por compartilhar e disponibilizar! O filme é ótimo!