La vie sur terre, 1998, Abderrahmane Sissako.
O papel da música no cinema africano
Ainda hoje, uma análise do complexo papel da música no cinema é frequentemente esquecido pelos críticos, muitos dos quais permanecem prostrados diante da ditadura da imagem. No entanto, como uma manifestação cultural, a música tem uma posição privilegiada no que diz respeito ao estudo das representações de identidade e ideologia; além disso, em seus aspectos subversivos e dialógicos, pode revelar importantes decisões do diretor relacionadas às dinâmicas do poder e da exclusão.
Considerando isso em função da importância da música dentro de numerosas culturas africanas, devemos concluir que a investigação do seu lugar continua a ser uma aspiração nos estudos sobre cinema africano. Para as primeiras cinco décadas do cinema africano, o significado da música foi entendido com relação a certos fins programáticos, como quando Ousmane Sembène e Djibril Diop Mambety se dedicaram a construir a imagem de suas nações recém-criadas. Seu trabalho pioneiro lidou com a necessidade de recuperar uma memória histórica intencionalmente obscurecida pelo imperialismo e de desenvolver alternativas aos dogmas coloniais e neocoloniais. Além disso, eles sentiram a urgência de elaborar um corpo teórico especificamente africano relacionado às praxis culturais e sociais em suas respectivas culturas. Nesse ambiente, o papel do cinema era crucial. Essa nova forma de arte, fundindo a pontência do idioma audio-visual e o legado complexo do imperialismo, passou a ser vista como um meio privilegiado de luta contra as injustiças no cotidiano desses diretores. Eles tinham consciência tanto da natureza complicada dos problemas que enfrentavam quanto do poder do cinema, através da imagem e especialmente som, de construir uma identidade autenticamente africana em oposição ao paternalismo conceitual reacionário proposto pelo ocidente.