27 de abril de 2016

Ousmane Sembène - La noire de... (1966) (Alta definição)


Senegal | Ousmane Sembène | 1966 | Drama | IMDB
Francês | Legenda: Espanhol/Português
65 min
|3.089 GiB

La noire de... (A negra de...)
 
Do conto homônimo de Sembene, publicado em 1961, "La noire de..." conta a história de uma jovem senegalesa que vai trabalhar na França com o casal de franceses que a empregava em Dakar. Inicialmente animada com a perspectiva de conhecer a França, ela logo se vê desiludida, notando diferenças no tratamento que os patrões lhe dão. O filme trata de modo único os efeitos do colonialismo, do racismo e dos conflitos trazidos pelas identidades pós-coloniais na África e na Europa. Baseado em um caso real.



Crítica 
 “La Noire de…” foi a primeira longa-metragem realizada por um cineasta subsariano.

Por Saymon Nascimento.

No artigo de hoje desta Cinemateca Africana, chegámos a um ponto crucial da história do cinema do continente. Depois de verem realizadores estrangeiros a apropriarem-se das imagens do continente para os mais diversos fins, nobres e torpes, e testemunharem o solitário sistema de estúdios e estrelas do Egipto, no final dos anos 1960, finalmente, poderemos falar de um cinema da África subsariana feita por subsarianos, cujo pioneiro foi o senegalês Ousmane Sembène.

Nascido em 1923, Sembène foi “o primeiro” em muitos aspectos. Fez a primeira curta-metragem realizado por um africano em África, Borom Sarrett; a primeira longa-metragem de um subsariano, La Noire de… que,  por sua vez, é o primeiro filme de um africano a vencer em França o tradicional prémio Jean Vigo, atribuído a jovens realizadores que tenham realizado um filme naquele país. Logo na sua primeira longa-metragem, Sembène uniu-se a uma estirpe consagrada de mestres como Jean-Luc Godard, Claude Chabrol, Alain Resnais e Chris Marker.

La Noire de… é considerado um filme francês justamente porque apenas o início e o fim decorrem no Senegal. É a história de Diouana, uma senegalesa levada para Antibes para trabalhar com os mesmos patrões que a empregavam em Dakar, onde viviam como expatriados. O que, no Senegal, era uma relação mais ou menos amistosa, ganha contornos de horror quando os personagens se mudam para território francês.

Assim como ocorria em boa parte de Come Back, Africa, que discutimos no texto anterior desta Cinemateca, a dinâmica entre brancos e negros por meio do trabalho continua a reproduzir uma relação de superioridade e de uma certa luta de classes. No caso do filme senegalês, a colonização pode ter acabado, mas não a intransigência do colono e a exploração do africano, ainda mais grave em terras estrangeiras. O título, La Noire de… traduz-se como a “A Negra de…”, como se um ser humano pudesse ser propriedade de outro.

O filme tem apenas 60 minutos e reproduz uma lógica bem simples de oposição – branco contra negro, pobre contra rico -, de uma forma didáctica que evidencia, talvez, a influência do cinema soviético na obra de Sembène – a sua escola de cinema, afinal, foi o Estúdio de Cinema Gorky, em Moscovo.

Ou, talvez, se possa ver essa influência de uma outra forma. Antes de começar a filmar, Sembène estabeleceu uma carreira como escritor – boa parte dos seus filmes, incluindo La Noire de…, é adaptada dos seus romances e contos -, na qual mostrava um alinhamento com visões sociais próximas do comunismo – e os países deste sistema político reconheceram as semelhanças e mostraram interesse pela sua obra numa época-chave da Guerra Fria, na qual americanos e soviéticos disputavam o poder de influenciar política e culturalmente os países africanos formados com a descolonização.

A opressão do branco dominante – que leva a protagonista de La Noire de… à sua tragédia pessoal – pode ser vista ou estar alinhada com um ponto de vista mais socialista, mas, esteticamente, não há como negar a influência do mesmo cinema etnográfico de Jean Rouch, por exemplo. Durante boa parte do filme, Sembène apenas filma sua protagonista enquanto uma voz narra para a plateia os seus pensamentos. No fundo, ela não chega a ter uma voz própria, como mulher e ser humano; é apenas uns instrumento para que o realizador expresse os seus temas. Curiosamente, como mencionámos no texto sobre o cinema de Rouch, Sembène é um dos seus maiores detractores, acusando-o de tratar os africanos como “insectos”. Na comparação entre os dois filmes, pouco mais do que o engajamento político de Sembène os separa.

La Noire de… foi apenas o início de uma carreira brilhante, que durou até os anos 2000, com Mooladeé, de 2004. Vários dos seus filmes e romances mostraram-se extremamente influentes, como Mandabi, o primeiro realizado numa língua africana, o wolof, que se mostra extremamente similar ao cinema iraniano, por exemplo. Um homem em Dakar recebe uma ordem de pagamento de um sobrinho que vive em França. Vai ao banco levantar o dinheiro, mas não tem documentos. Vai tirar os documentos, mas não tem fotografias, e nem sequer sabe exactamente a data de nascimento. Tenta recorrer à corrupção para que lhe facilitem a vida e acaba por endividar-se antes mesmo de receber o dinheiro. É o tipo de conto simples e tétrico que vimos no Irão, em boa parte dos anos 1980 e 1990, em filmes como Onde é a Casa do Amigo?, Filhos do Paraíso e O Espelho.

Também marcou a crítica religiosa. Oriundo de uma família do povo Serer que participava de cultos tradicionais, Sembène sempre foi contrário à expansão do islamismo no seu país, e, em menor escala, do cristianismo. Mais tarde, já ateu e marxista, viu o seu filme Ceddo (“os que resistem à escravidão”, em tradução adaptada, ou em contexto, o povo laico), altamente crítico da religião, proibido de ser exibido no Senegal.

Apesar deste revés circunstancial, o seu carácter de pioneiro e o seu reconhecimento internacional nunca fez com que perdesse o respeito no seu país ou fosse ameaçado de prisão (como os soviéticos da época fizeram com mestres do cinema, a exemplo de Sergei Paradjanov). Sembène morreu em 2007, aos 84 anos, tendo a sua obra sido exibida e premiada nos maiores festivais de cinema do mundo,  como Cannes e Veneza.

Fonte


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Créditos da postagem a mfcorrea, no MakingOff.

 

Um comentário:

Santa Satanasa disse...

This movie has a green line on the right.