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30 de janeiro de 2011

Um confronto histórico entre Jean Rouch e Ousmane Semène em 1965: “Vocês nos olham como se fôssemos insetos”



Este diálogo de 1965 se deu entre dois grandes cineastas – um senegalês, o outro francês – cujos principais filmes tem como tema a África. Na época da conversa, o francês Jean Rouch (1917-2004) estava na vanguarda do cinema europeu. Aclamado como um diretor etnográfico, Rouch foi o primeiro a usar o tema “cinéma vérité”, aplicando-o a “Crônica de um verão” (1960), seu filme mais conhecido. Significando literalmente “cinema verdade”, “cinéma vérité” é um gênero que mistura fato e ficção e que foi um influente movimento cinematográfico dos anos 1950 e 60. O apego de Rouch por temas africanos durante sua vida começou em 1941. Seus documentários da África Ocidental, como “Les hommes qui font la pluie” (1951), “Les maîtres fous” (1955) e “La pyramide humaine” (1961) mostram sua fascinação por magia e ritual. (...) “Vocês nos olham como se fôssemos insetos,” contesta Ousmane Sembène nesta conversa.

Diretor, produtor e escritor de grande destaque senegalês, Ousmane Sembène (1923-) ajudou a definir a África moderna da era pós-colonial. O sucesso premiado de seu filme “Borom Sarret” no Tours International Festival em 1963, na França, dois anos antes que este diálogo acontecesse, trouxe o cinema africano ao cenário mundial. O comentário de Nwachukwu Frank Ukadike considerava os filmes de Sembène no contexto de um cinema revisionista feito por africanos negros e seu objetivo de dar uma voz autêntica para a África moderna. Neste “confronto histórico” entre Sembène e Rouch a questão da autenticidade – de quem pode representar verdadeiramente a África – é, mais uma vez, sublinhada enfaticamente. Quais são os argumentos de Rouch a favor do ponto de vista etnográfico? Como Sembène reage? Qual é o dilema para o artista e a audiência? Como resolve-lo?

Fonte: The Short Century: Independence and Liberation Movements in Africa 1945-1994, editado por Okwui Enwezor, p.440. Munich, London, New York: Prestel, 2001. Transcrito por Albert Cervoni e traduzido para o inglês por Muna El Fituri.



Ousmane Sembène: Cineastas europeus, como você, continuarão a fazer filmes sobre a África uma vez que haja vários cineastas africanos?

Jean Rouch: Isso dependerá de várias coisas, mas meu ponto de vista, no momento, é de que eu tenho uma vantagem e uma desvantagem ao mesmo tempo. Eu trago o olhar do estranho. A própria noção de etnologia está baseada na seguinte idéia: alguém confrontado com uma cultura que é estranha a ele vê certas coisas que as pessoas de dentro dessa mesma cultura não vêem.

Ousmane Sembène: Você diz olhar. Mas no ramo do cinema, não basta ver, é preciso analisar. Estou interessado no que vem antes e depois do que nós vemos. O que eu não gosto na etnografia, sinto dizer, é que não basta dizer que um homem que nós vemos está andando; precisamos saber de onde ele vem, para onde ele vai.

Jean Rouch: Você está certo nesse ponto porque nós não chegamos ao objetivo de nosso conhecimento. Acredito também que para estudar a cultura francesa, a etnologia a respeito da França deveria ser praticada por pessoas de fora. Se algém quer estudar Auvergne ou Lozere, é preciso ser Briton. Meu sonho é que africanos produzam filmes sobre cultura francesa. De fato, você já começou. Quando Paulin Vieyra fez Afrique sur Seine, seu objetivo era de fato mostrar estudantes africanos, mas ele os estava mostrando em Paris e estava mostrando Paris. Poderia haver um diálogo e você poderia nos mostrar o que nós mesmos somos incapazes de ver. Estou certo de que a Paris ou a Marselha de Ousmane Sembène não é a minha Paris, minha Marselha, de que elas não tem nada em comum.

Ousmane Sembène: Há um filme seu que eu adoro, que eu defendi e continuarei a defender. É Moi, um noir. Em princípio, um africano poderia tê-lo feito, mas nenhum de nós, na época, tinha as condições necessárias para produzi-lo. Acredito que é necessária uma continuação para Moi, un noir – penso nisso o tempo todo – a história desse jovem que, após a Indochina, não tem emprego e acaba na cadeia. Depois da Independência, o que acontece com ele? Alguma coisa mudou para ele? Acredito que não. Um detalhe: esse jovem tinha seu diploma, agora acontece que a maioria dos jovens delinquentes tem diplomas escolares. Sua educação não os ajuda, não os permite viver uma vida normal. E, finalmente, sinto que até agora dois filmes de valor foram feitos sobre a África: o seu, Moi, un noir, e Come back Africa, do qual você não gosta. E há um terceiro, de uma ordem particupar estou falando do Les Statues Meurent Aussi

Moi, un noir (1958)
Jean Rouch: Gostaria que você me dissesse porque não gosta dos meus filmes puramente etnográficos, aqueles nos quais nós mostramos, por exemplo, a vida tradicional?

Ousmane Sembène: Porque vocês mostram, vocês fixam uma realidade sem ver a evolução. O que eu tenho contra você e os africanistas é que vocês nos olham como se fôssemos insetos.

Jean Rouch: Como Fabre [Jean Henri Fabre (1823-1915), famoso por seu estudo do comportamento e anatomia dos insetos] teria feito. Defenderei os africanistas. São homens que certamente podem ser acusados de olhar para homens negros como se fossem insetos. Mas podem haver Fabres por aí que, ao examinar formigas, descobrem uma cultura similar, que é tão significativa quando a deles próprios.

Ousmane Sembène: Filmes etnográficos com frequência nos prejudicaram.

Jean Rouch: Isso é verdade, mas é culpa dos autores, porque com freqüência trabalhamos precariamente. Não muda o fato de que na situação atual podemos fornecer testemunhos. Você sabe que há uma cultura ritual na África que está desaparecendo: griots morrem. É preciso reunir os últimos traços vivos dessa cultura. Não quero comparar africanistas com santos, mas eles são monges infelizes encarregados da tarefa de reunir fragmentos de uma cultura baseada em uma tradição oral que está em processo de desaparecimento, uma cultura que me arrebata por sua importância fundamental.

Ousmane Sembène: Mas etnógrafos não coletam fábulas e lendas apenas dos griots. Não se trata somente de explicar máscaras africanas. Tomemos, por exemplo, o caso de outro de seus filmes. Les Fils de I'Eau. Acredito que vários espectadores europeus não o entenderam porque, para eles, esses ritos de iniciação não tiveram significado nenhum. Acharam o filme bonito, mas não aprenderam nada.

Jean Rouch: Ao filmar Les Fils de I'Eau, pensei que assistindo o filme os espectadores europeus poderiam fazer apenas isso, ir além do velho estereótipo de negros como “selvagens”. Eu simplesmente mostrei que apenas porque alguém não participa de uma cultura escrita não quer dizer que ele não pense. Há também o caso de Maitres Fous, um de meus filmes que provocou debates acalorados entre colegas africanos. Para mim, ele testemunha a maneira espontânea pela qual os africanos mostrados no filme, uma vez que fora de seu meio, livram-se desse ambiente industrial e metropolitano europeu ao representá-lo, fazendo dele um espetáculo. Acredito, entretanto, que problemas de recepção aparecem. Um dia, eu exibi o filme na Filadélfia em um congresso antropológico. Uma senhora veio até mim e perguntou: “posso ficar com uma cópia?”. Eu a perguntei por que. Ela me disse que era do sul e... ela queria mostrar... esse filme para provar que negros eram de fato selvagens! Eu recusei. Entende, eu lhe dou razão.

Em acordo com os produtores, a exibição de Maitres Fous havia sido reservada para casas de arte e cinemas. Acredito que não se deveria trazer tais filmes para uma audiência que é grande demais, mal informada, e sem devida apresentação e explicação. Também acredito que as raras cerimônias das pessoas em Maitres Fous fazem uma contribuição primordial para a cultura mundial.



27 de janeiro de 2011

Raymond Rajaonarivelo - Tabataba (1988)


Madagascar/França | Raymond Rajaonarivelo | 1988 | Drama/Ação | IMDB 
Francês/Malgaxe | Legenda: Português/IEspanhol 
79 min | XviD 720 x 432 | 2.770 kb/s | MPEG1/2 L3 111 kb/s | 29.970 fps 
1,25 GB

Tabataba (Rumor)
Tabataba se passa em 1947, no coração de uma vila tradicional malgaxe, em Madagascar. É neste lugar afastado que se fomenta a revolta contra o regime colonial - o germe de uma revolução que, alguns anos mais tarde, levaria à independência de Madagascar. Um "estrangeiro" portador dos princípios do Movimento Democrático da Renovação Malagache (MDRM) trava um debate clandestino com os homens da vila. Que via tomar para a independência? A luta armada? O voto democrático? Transbordando de entusiasmo, o camponês Léhidy se decide pela primeira opção, passando a liderar um grupo de conterrâneos. A história da insurreição e da sua repressão é vista através dos olhos do garoto Solo.

25 de janeiro de 2011

Djamila Sahraoui - Barakat! (2006)

Argélia/França | Djamila Sahraoui | 2006 | Drama | IMDB
Árabe/Berbere/Francês | Legenda: Português 
95min | XviD 720 x 400 | 2.443 kb/s | 140 kb/s MPEG1/2 L3 | 29.970 fps 
1,36 GB

Ambientado na Argélia da Guerra Civil dos anos 90, Barakat! (Basta!) segue duas mulheres na perigosa procura pelo marido da mais jovem delas, um jornalista cujos escritos resultaram em seu desaparecimento. Ambas as mulheres representam anacronismos na Argélia islâmica: a mais jovem é uma médica, a mais velha é uma enfermeira cujas memórias da luta pela independência ainda estão vívidas. Ignorando a constante ameaça de ataque pelas milícias armadas, as duas desafiam os homens que encontram a aceitá-las e ajudá-las em sua busca. Sua jornada através das paisagens argelinas as leva a uma compreensão mais profunda de como suas vidas estão relacionadas à história de seu país.  







Legenda do trailer
- Com licença, meu marido desapareceu.
- Murad, o jornalista, onde ele está?
- Não sei se os mataram, ou se eles matam.
- Criança, escute o que ela diz.
- Vou encontrá-lo sozinha!
- Ok, vá encontrá-lo sozinha!
- Repita, repita, agora!
- Basta!


Entrevista com a diretora


Depois de vários documentários, Barakat! é sua primeira ficção. O que a levou a mudar de gênero?

O documentário é uma escola apaixonante, mas às vezes frustrante. Você estabelece com as pessoas que filma relações muito fortes, mas você não pode ir além dos limites que elas lhe impõem. Há várias situações que eu não poderia jamais mostrar em um documentário, ainda que elas sejam bem reais! Não posso dizer a uma jovem argelina: você vai entrar nessa lanchonete, os homens vão agredi-la e eu vou filmar!

Para sua primeira ficção, você não se lançou a um tema evidente: a guerra civil dos anos 90!
Esse tema era para mim mais o pretexto para fazer o retrato de duas mulheres... Duas mulheres que pertencem a gerações diferentes, mas que reagem da mesma maneira diante da adversidade. Elas vivem situações dramáticas, mas avançam, sem sentirem auto-piedade.


Você definiria Barakat! como um road movie?
Eu diria sobretudo uma odisséia: elas fazem um percurso muito longo para finalmente retornarem a suas casas. Era importante que elas saíssem de casa, que elas se afastassem de seus universos, afim de ir em direção ao perigo e ao desconhecido, mas também ao encontro do outro, como o velho camponês que lhes oferecerá sua hospitalidade e acabará por acompanhá-las.

Khadija representa toda uma parte da história argelina...
Tenho uma grande admiração pelas mulheres dessa geração, aquelas que fizeram a guerra. Elas foram os ídolos de minha infância. Não desejo mais colocá-las em um pedestal como fez a propaganda oficial. Através de Khadidja o filme zomba um pouco do mito da "grande heroína". A exaltação dessas heroínas revolucionárias não impediu os homens de enviar as mulheres de volta às suas vasilhas.

Você mostra a dureza das relações entre os homens e as mulheres, a tensão cotidiana.
O filme mostra efetivamente a pressão cotidiana que pesa sobre as mulheres. Eu estou convencida de que a violência da guerra dos anos 90 está também ligada à violência das relações sociais, e portanto à violência que a sociedade exerce sobre as mulheres... Será necessário um dia que os homens tomem consciência da injustiça que eles fazem a si mesmos se privando de metade da população.

Seu filme não oferece uma imagem muito positiva dos homens argelinos...
Há dois personagens positivos: o velho e o menino... a geração precedente e a seguinte. Mas além de algumas exceções os homens presentes no filme não fazem nada de muito maldoso, estão apenas cumprindo seu papel. O farmacêutico se recusa a entregar os remédios sem receita, os motoristas de taxi não estão dispostos a arriscar suas vidas... nada de mais normal. 

Khadidja é chamada várias vezes de "hadja".
E isso a enfurece! O termo "hadj" designa aquele ou aquela que fez a peregrinação à Meca: é o caso de Hadj Slimane, o joalheiro. Nos anos 90, com a ascenção do islamismo, os jovens passaram a chamar de "hadja" as mulheres de uma certa idade, em sinal de respeito. Porque uma mulher de certa idade era obrigatoriamente pia e obrigatoriamente ela havia ido a Meca. Isso irrita Khadidja... que passa longe de ir à Meca! Ela se veste de modo ocidental, se maquia...

Mas ela não hesita em vestir o véu para enganar os homens.
É uma referência à guerra de independência. Quando as mulheres como Khadidja colocavam o véu, era para carregar armas através das barreiras. Khadija reproduz esse esquema, se disfarça. Durante as duas guerras, não se investigava as mulheres; elas poderiam assim passar armas, dinheiro, papéis... Pode-se vê-lo vem no Batalha de Argel, o filme de Pontecorvo... A mulher que leva o revólver na cesta e o dá ao homem, é aliás também um imagem do Batalha de Argel.

Explique-nos o título do filme, Barakat!, "Basta".
Basta a violência que gangrena essa sociedade. A geração atual, a da guerra civil, herdou a violência de seus pais, como Amel herdou o revólver de seu pai. A história desse país sempre foi violenta, sofrem-se as cicatrizes de uma guerra e começa um outra. É hora de acabar o ciclo.

Isso pode querer dizer o esquecimento, a anistia?
Evidentemente não, há um trabalho de justiça e de memória a fazer. É preciso narrar e explicar o acontecido para poder digeri-lo e passar a outra coisa. É preciso julgar os culpados. Isso será ainda mais duro nessa guerra do que na precedente: durante a guerra de independência havia um inimigo designado, o exército francês, havia uma causa justa, a independência. Então, eram argelinos contra argelinos. Isso será longo e difícil...


Fonte e versão completa (em francês)


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