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3 de maio de 2011

Gavin Hood - Tsotsi (2005)


África do Sul | Gavin Hood | 2005 | Drama/Policial | IMDB
 
Zulu/Xhosa/Afrikaans | Legenda: Português
  90min | XivD
640 x 272 | MP3 122 kb/s | 25.000 fps 
699 Mb

Tsotsi
Filmado no "township" (município) de Soweto, o filme conta a história de um "tsotsi" (durão) de 19 anos, que precisa tomar conta de um bebê encontrado no banco de trás de um carro que roubou após atirar na mãe da criança.
Uma co-produção entre Grã-Bretanha e África do Sul, o filme é a adaptação cinematográfica do livro homônimo do sul-africano Athol Fugard.
Depois de Yesterday, sobre a exclusão dos doentes de Aids, e de Carmen em Khayelitsha, rodado em um acampamento de "squatters" (ocupantes ilegais) na Cidade do Cabo, Tsotsi é o sucesso mais recente de uma indústria cinematográfica que aborda os problemas contemporâneos da "nova África do Sul".  

Vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro (2005) e Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro (2006).

25 de abril de 2011

Henry Barakat - Fi Baitina Rajul (1961)


Egito | Henry Barakat | 1961 | Drama | IMDB
 
Árabe | Legenda: Português/Inglês/Francês
  2h 33min | XivD
624x464 | MPEG 1/2 L3 128 kb/s | 25.000 fps 
1,78 GB

Fi Baitina Rajul / Um estranho em minha casa 
Um drama político sobre a resistência à dominação britânica do Egito, que terminou com o exílio do rei-títere Farouk em 1954 e a ascenção ao poder de Gamal Abdel Nasser. O filme começa com o assassinato de Primeiro-Ministro pelo jovem revolucionário Ahmed Hamdi. Em sua fuga da polícia, Hamdi refugia-se na casa de uma família apolítica de classe-média, que acaba assumindo o risco de esconder um perigoso fugitivo da justiça. Baseado em uma novela de Ihsan Abdel Qoddous, o filme é um retrato fiel desse turbulento período, no início da década de 1950.







Crítica: Um estranho em minha casa
O portão de uma casa habitada por uma família, imagem que indica a entrada e o início de um caminho que tem como seu ponto de chegada a ambiência serena e afetuosa de um lar, é o primeiro signo que nos é apresentado por Um Estranho em Minha Casa. Em cima dessa imagem/signo vemos os créditos iniciais do filme, que após nos apresentar o conjunto de atores e técnicos envolvidos em sua realização, antecede o começo da narrativa com uma cartela institucional. Nela, os produtores agradecem a instituições (à polícia, às forças armadas, à prefeitura, aos hospitais) pela colaboração dada ao filme e afirmam que por intermédio desta foi possível concretizar uma obra profundamente “realista e brilhante”.

Percebemos aí, logo de cara, a utilização estratégica do adjetivo “realista” como indicador de um critério de qualidade e renovação. A indústria cinematográfica egípcia (a única do mundo árabe, apta por sua produtividade, a receber essa classificação) adquiriu significativa força a partir da década de 30 através do papel exercido por estúdios mantidos pela iniciativa privada, como é o caso dos estúdios MISR. Essa produção é considerada pela maioria dos historiadores/pesquisadores que se debruçaram no estudo da cinematografia árabe como absolutamente mimética à Hollywood. Os poderosos magnatas, empresários e industriais egípcios, ávidos pela diversificação de seus negócios, ao elegerem a atividade cinematográfica teriam enxergado na repetição das velhas fórmulas a chave para o lucro fácil e garantido. Tal visão do cinema egípcio pré-1952 como exclusivamente escapista, comercial ao extremo, pouco “artístico” e afastado da realidade social do país, foi reforçada quando em 1947 foi promulgado um rígido código de censura (claramente inspirado no modelo norte-americano) que vetava, sem pudor, a representação das classes populares. A periferia e os bairros pobres não deveriam existir como cenários, os camponeses e o crescente proletariado urbano eram personagens do mundo “real” que não poderiam de maneira nenhuma penetrar no Mundo do Cinema. Realidade e Cinema eram elementos conscientemente trabalhados como esferas opostas, logo o diálogo entre elas estava impossibilitado.

Houveram exemplares isolados de um cinema com fortes inspirações “realistas”: Al-azima/ A Determinação (Kamal Selim, 1939) e As-suq alasuad/O Mercado Negro (Kamal al-Telemsani, 1945), porém essa tendência, consideravelmente ampliada pela difusão dos principais filmes neo-realistas italianos, só ganharia maior relevo após a revolução encabeçada por Gamel Abdel Nasser em 1952. Os principais nomes da etapa “realista” desse renovado cinema egípcio seriam Yussef Chahine, Salah Abu Seyf e Tawfiq Salah. Porém, mesmo esses três diretores que, com a exceção de Tawquif Salah, já tinham realizado filmes nos anos 40, teriam que injetar o desejado realismo com uma certa dose de parcimônia. O aspecto realista desses filmes pós-revolução nasserista acabavam sendo diluídos em um caldo melodramático predominante. O melodrama como gênero de imbatível apelo popular e o uso de um sólido star system (encabeçado sobretudo pelo par romântico Omar Sharif/ Faten Hamana) permaneciam como as principais ferramentas utilizadas para se chegar ao grande público. Portanto, esse frágil realismo se ancorava muitas vezes apenas na solução fotográfica de se usar luz natural, mesclada com o olhar voltado para os ambientes/personagens populares. A narrativa, a dramaturgia, os diálogos e as soluções de mise-en- scène ainda eram bastante devedoras do cinema clássico. O realismo seria então aqui efetivado como um adorno, mais como um floreio diferenciador e menos como uma essência diferencial, manuseada acima de tudo para separar e delimitar, um pretenso novo cinema que estaria por vir, daquele velho cinema que já foi.

Essa dicotomia estabelecida entre um “velho cinema” versus um “novo cinema” é onipresente em Um Estranho em Minha Casa. O que esse filme teria de “clássico” e o que ele emanaria de “novo”? Em uma primeira aproximação percebemos que ele opera tímidas tentativas inovadoras (sobretudo no contexto egípcio) estando mergulhado até o pescoço em uma estrutura clássica. O que o sustenta e o que o mantêm de pé é a narrativa clássica, ela é o seu ar, é ela que oxigena o seu cérebro. Porém, simultaneamente a essa constatação, sentimos que há ali, algumas vezes escondido e em outras não, um desejo de inovação. No meio daquelas fortes e constantes tinturas morais, utilizadas de maneira extremamente didáticas – a defesa incondicional da família como instituição sagrada e da educação como o bem maior a ser cultivado pelo Homem – notamos um incubado movimento de ir além. Porém, esse ir além, se chega a existir como um anseio, acaba sendo seguidamente freado pelo todo que o engole.

Ibrahim Hamdy (Omar Sharif) é um herói clássico até o último fio de cabelo. Em sua sólida e metálica fortaleza moral não há aberturas para ambigüidades, dúvidas existenciais ou conflitos psicológicos. O seu ideal é reto e direcionado para um ponto minuciosamente focalizado. A sua motivação e a razão de sua existência é uma só: salvar o Mundo e, por conseguinte, carregar todas as suas injustiças nas costas. Cabe a ele ser o responsável pelas dores do Mundo e aqui Mundo é lido como país, logo a libertação do Egito e a aniquilação das forças imperialistas britânicas estão exclusivamente em suas mãos. Newal, a jovem que por ele se apaixona, vê na imagem de seu amado a luz e a força indestrutível de um verdadeiro Deus. Força que será capaz de remover e ultrapassar todos os obstáculos para promover o bem. Quando o seu irmão Mohel e o primo Abdel Hamid foram presos, ela realmente acreditava que no exato momento em que Ibrahim se interasse do fato, ele os libertaria em uma fração de segundo. De fato, se lembrarmos da extrema facilidade com que o protagonista entra no palácio de governo, mata o 1º Ministro e foge da prisão dias depois, tendemos a concordar com Newal a respeito da invulnerabilidade de nosso herói. Tamanho aspecto invencível é explicado pela força de seus objetivos. Quando Abdel Hamid pergunta com evidente perplexidade sobre a razão que o levou a assassinar o governante, sacrificando assim o seu futuro, Ibrahim responde: “Fé, se tiver fé em seus princípios, jamais terá dúvidas”.

Em um outro momento, o personagem afirma: “servir o meu país não foi uma questão pessoal”. Esse impetuoso sentimento de doação, de se sacrificar pela coletividade ou pela entidade que ele compreende como “povo”, está intimamente entrelaçado com a atmosfera religiosa/messiânica onipresente no transcurso da narrativa. Fé e nacionalismo são aqui substâncias indissociáveis. Ser patriota é tão natural quanto acreditar em Deus. Ser patriota transcende o fato de ser ou não politizado. Quando a “sagrada família” se encontrava no dilema entre dar ou negar abrigo a Ibrahim, a apolítica Newal diz que sendo egípcios eles teriam a obrigação de acolhê-lo. A igualmente alienada Samia, afirma que “até mesmo um ateu” teria dado abrigo ao fugitivo. Convencido por esse argumento, de que é necessário socorrer o próximo quando este se encontra em apuros, o Pai volta atrás e o recebe em seu lar. O pai alega que seu ato não o faz se envolver com política e que o mesmo se funda unicamente no sentimento religioso de ajudar o seu semelhante. Porém, todos sabiam que Ibrahim não era um assassino comum e tinham a ciência do que o levou a matar. O grande temor pela política sentido e difundido pelo patriarca se baseia na possibilidade que ela apresenta em levar seus entes queridos para caminhos perigosos. O Pai aconselha Mohel a se dedicar exclusivamente em seus estudos e a nunca se envolver com os “amigos de Ibrahim”. A política e os indivíduos que estavam próximos dela eram sem dúvida más companhias. O discurso de que é importante ser fiel à pátria e de que a política é um negócio arriscado e para poucos, mais do que emanar das ações/falas dos personagens, acaba adquirindo maior relevância através do uso das tais estratégicas clássicas priorizadas pelo filme. Ao fazer uso do herói idealizado, Um Estranho em Minha Casa corrobora a idéia de que a sua atitude revolucionária é uma exceção e não uma regra. Aqueles manifestantes que aparecem no inicio da narrativa formam uma massa e um todo homogêneo. Não existem outros Ibrahims no meio daquela multidão que se rebela. Aquela massa não é composta por vários Ibrahims, e sim por indivíduos cujos rostos são apagados para que possamos enxergar com extrema nitidez apenas o rosto do nosso grande herói. Até mesmo os outros líderes estudantis, companheiros próximos do protagonista, não possuem a sua inabalável integridade ética. Um deles chega a sonegar informação para que o líder possa se exilar na França.

Em várias falas o protagonista diz que a família que o acolheu não tem “culpa”, porque não se envolve com política. A política é realmente algo para poucos abnegados que lutam e se interessam pelo bem-estar do povo. Este deve se preocupar apenas com os seus estudos, com o seu trabalho e com a sua vida cotidiana, deixando que esses poucos o conduzam. A determinação e o caráter de Ibrahim é vista pelo espectador como algo louvável, mas, também, sobrenatural. Ao mesmo tempo em que queremos ser como ele, devido ao processo de identificação que se consolidou, consideramos que alguém como ele “é coisa de cinema”, afirmação que comprova que, apesar do uso de um pretenso “realismo”, o que sobressai é o espetáculo clássico e as convenções de representação.


 
Por favor, semeie! Semear é muito importante para que outras pessoas tenham acesso ao filme.
 
Créditos da postagem a mfcorrea, no MakingOff.

8 de abril de 2011

O cinema político africano e o direito de narrar

por Marcelo Ribeiro
 
O texto abaixo aborda o filme Bamako (2006), de Abderrahmane Sissako, a partir de uma revisão do conceito de cinema político. Dando continuidade à experiência de análise crítica de filmes que propus antes, procuro descrever as características estéticas do filme de Sissako, como uma base para interpretar as questões políticas absolutamente contundentes que o filme movimenta.


– O conceito de cinema político –
Um dos gêneros mais importantes dos cinemas africanos é sem dúvida o chamado cinema político. A denominação “cinema político” não está isenta de problemas – afinal, que critérios podem orientar a classificação? – e remete, em última instância, à própria definição de política – e, portanto, aos lances do jogo etimológico que liga a forma clássica da polis grega às formas contemporâneas de coletividade (em diversos níveis que, hoje, tendem a tomar o enquadramento nacional como referência, embora não se reduzam a ele). Entretanto, apesar do problemas, o conceito de cinema político permanece relevante, desde que seja deslocado.


Uma das objeções mais radicais ao conceito (no sentido de atacar suas raízes, seus fundamentos) costuma tomar a forma de uma generalização: “todo cinema é político”, dizem por exemplo Eduardo Valente e Ruy Gardnier num editorial da Contracampo, uma vez que “toda ação humana é em si política”. No entanto, partir de um conceito amplo de política e dizer que “todo cinema é político” pode nos impedir de compreender as configurações cinematográficas da questão da política, simplesmente por tornar impossível reconhecê-las. Não se trata de saber o que define restritivamente o cinema político – como se fosse possível aplicar critérios temáticos para classificar um filme como político ou não, de acordo com uma concepção bastante usual da política como esfera separada da vida coletiva. Sem dúvida, a força dessa concepção se deve à adesão, muitas vezes cega, aos discursos dominantes nas democracias representativas ocidentais, que diferenciam formalmente a política da arte, da economia ou da religião, entre outras, e neutralizam, dessa forma (pelo desconhecimento e pela recusa de reconhecimento), as múltiplas zonas de indeterminação em que as esferas da vida coletiva se indiferenciam.


Um dos sentidos do deslocamento necessário para o conceito de cinema político consiste na passagem de uma concepção restrita da política como esfera separada (o que poderia ser chamado mais certamente de governo, como sugere a Flávia Cera) para uma concepção generalizada da política como construção de um mundo comum. Assim, o cinema político não designa apenas o conjunto de filmes que retratam a esfera da política (no sentido restrito) e os políticos – como é o caso do contundente Xala (Ousmane Sembène, 1975) – nem tampouco os filmes que abordam temas geralmente discutidos na esfera da política (isto é, objetos de políticas públicas governamentais, tanto em âmbito nacional quanto internacional) – como é o caso de Moolaadé (Ousmane Sembène, 2004). Com efeito, a intensidade política desses e de outros filmes do senegalês Ousmane Sembène resulta, em parte, do fato de não abordarem a política como esfera separada, impedindo sua sacralização como espaço decisório.


Precisamos devolver ao cinema sua potência política. Em primeiro lugar, é preciso saber em que consiste a potência política do cinema – de todo cinema – incluindo, entre outros tipos de filmes, as comédias românticas mais individualistas (afinal, o pessoal é o político) e as ficções científicas mais apocalípticas (afinal, se a política como esfera separada se preocupa com o futuro previsível do planejamento governamental, a política irrestrita se interessa no porvir como advento, sempre monstruoso, do novo). Contudo, em vez de dizer simplesmente que “todo cinema é político” (arriscando um esvaziamento da questão da política que corresponde, como seu oposto completo, à sua separação), é preciso reconhecer que, se todo cinema tem (ou pode ter) efeitos políticos, na medida em que existe no mundo comum, o cinema político consiste num certo tipo de cinema (e não todo cinema): aquele que se engaja no questionamento e na exploração de seu próprio caráter político. Se, do ponto de vista de seus efeitos, todo cinema é potencialmente político (porque pode produzir efeitos no mundo comum que compartilhamos), do ponto de vista de sua intencionalidade e, principalmente, de suas características estéticas, só é político o cinema que interroga e intensifica a sua própria potência política, disseminando sua deriva interrogativa.


– Bamako como cinema político –
Um dos propósitos mais recorrentes dos cinemas africanos consiste na busca por outras imagens da África e de suas paisagens culturais. Diante do exotismo colonialista que se prolonga no regime ocidentalista de escritura da ‘África’ e se investe com o que Edward Said chama de “poder de narrar” (e, portanto, de excluir outras narrativas), os cinemas africanos têm como impulso originário, mesmo que eventualmente subterrâneo e inconsciente, a reivindicação do direito de narrar. Eis a sua condição política originária. No entanto, se todos os cinemas africanos carregam a potência política da reivindicação do direito de narrar, o cinema político africano pode ser identificado naqueles filmes que interrogam e exploram (de forma consciente, por assim dizer) a questão da política da narrativa como condição originária de sua própria existência. É justamente o que está em jogo no filme Bamako (2006), de Abderrahmane Sissako, que faz soprar novos ares na tradição mundial do cinema político ao construir e desconstruir, ao mesmo tempo, um dispositivo ficcional: o julgamento de um processo da “sociedade civil africana” (representada pelo povo do Mali) contra as instituições financeiras internacionais (representadas pelo Banco Mundial e pelo Fundo Monetário Internacional) e suas políticas de ajuste estrutural, seus ditames econômicos sabidamente desastrosos, seu papel reconhecidamente problemático na promoção global da insustentabilidade.


O processo se passa no quintal de uma casa em Bamako e esse cenário – que é a casa do pai de Sissako – exemplifica um recurso importante do cinema de Sissako: a autobiografia, que para ele deve se desdobrar como abertura para o outro (um tema que merece ser abordado a parte, quem sabe, em outro texto). O dispositivo elaborado pelo diretor consiste em três câmeras fixas destinadas à captação do julgamento – uma voltada para a corte, duas voltadas para a bancada de testemunhas (uma frontal e outra lateral) – e em uma câmera em movimento – que passeia pelo quintal, mostra ângulos diferentes da corte, dos advogados e das testemunhas, registra os movimentos da plateia e as inúmeras irrupções do cotidiano que interrompem o processo, introduzindo seu ritmo mundano na mecânica regrada do julgamento e se fazendo registrar igualmente pelas câmeras fixas. Entre os diversos elementos do cotidiano, adivinham-se os traços sugestivos, embora incompletos, de outras “memórias de gênero”, suplementando o “filme de tribunal”: um melodrama familiar se desenrola entre Melé e Chaka, um casal cuja filha está doente e cuja relação passa por uma crise profunda, enquanto um detetive realiza uma investigação policial em torno do sumiço ou do roubo de uma arma. Entre os fios narrativos articulados, embora disjuntos, o que se entrevê são os afazeres e os acontecimentos mais variados que compõem um panorama do cotidiano – mulheres tingindo tecidos, crianças brincando e chorando, a celebração de um casamento etc.


No julgamento, a parte civil é representada por uma equipe encabeçada pela senegalesa Aïssata Tall Sall e pelo francês William Bourdon, enquanto a defesa fica por conta da equipe do burquinabê Mamadou Savadogo, do maliano Mamadou Konaté e do francês Roland Rappaport. São advogados e advogadas profissionais que interpretam a si mesmos como outros, assumindo posições na tecelagem da ficção do processo, como atores não-profissionais (o que exemplifica de forma contundente a herança neo-realista que marca o cinema de Sissako). É curioso o exemplo de Roland Rappaport: no filme, ele é o responsável pela argumentação final da defesa das instituições financeiras internacionais; fora do filme, sua atuação como advogado o aproxima justamente da posição contrária, de questionamento do papel dessas instituições no mundo contemporâneo. A corte é composta pelo presidente do tribunal, Hamèye Founé Mahalmadane, assessorado por Mariam Cissé, Alou Diarra e Oumou Berithé Diakité. À busca por profissionais do direito se acrescentou a busca por testemunhas, que foi feita sobretudo junto a associações. Por fim, as pessoas da cidade foram convidadas para o julgamento, cujos depoimentos assistem de dentro do quintal ou escutam do lado de fora, cujos trâmites ignoram, interrompem ou respeitam, cujo desfecho aguardam ou antecipam.


A partir de suas trajetórias e de seus conhecimentos, os depoimentos que as testemunhas oferecem movimentam diversas questões cruciais para as políticas governamentais contemporâneas (remetendo à concepção restrita de política da modernidade): a produção agrícola e industrial e a organização dos mercados nacionais e internacionais; as privatizações, o papel dos Estados nacionais e seu desmonte no contexto do neoliberalismo; as migrações e as experiências de deslocamento que povoam as faces da Terra. A escritora Aminata Dramane Traoré, ex-Ministra da Cultura do Mali, argumenta que a África é vítima de suas riquezas, e não da pobreza. Madou Keita narra uma experiência trágica de migração através do deserto. O professor Georges Keita discute as economias nacionais dos Estados africanos e seu papel nos problemas que os países do continente enfrentam. Samba Diakité recebe a palavra para ser ouvido pela corte mas, depois de dizer seu nome e outras informações exigidas pelo protocolo, permanece calado sobre todo o resto, com um silêncio contundente. Assa Badiallo Souko denuncia as políticas de privatização em meio ao neocolonialismo das multinacionais.


Em Bamako, o aparelho cinematográfico acolhe um acontecimento singular, abrigando na ficção – no cerne do falso que existe apenas para aparecer na tela – uma potência política que permanece contida, silenciada e neutralizada na realidade jurídico-política em que nos encontramos. Em Bamako, o cinema começa a fazer justiça, suplementando a injustiça perpetrada pelas instituições que se inscrevem paradoxalmente sob o signo da justiça, da humanidade e da cooperação internacional. A justiça que se faz pelo cinema – e que permanece interminável, por vir – encontra seu impulso primeiro no desejo de dar uma outra imagem da África (e do mundo) e na reivindicação de um direito de narrar. Esse desejo e essa reivindicação constituem não apenas a condição originária dos cinemas africanos, como afirmei acima, mas também temas centrais que atravessam Bamako e ligam os depoimentos das testemunhas, o julgamento como dispositivo, as interrupções que o cotidiano acarreta… entrelaçando todos os fios da narrativa.


O julgamento se abre – antes mesmo de começar – com a questão da palavra, de sua potência e de sua dádiva interdita: o camponês Zegué Bamba se dirige à corte sem que lhe tenha sido dada a palavra e tem sua participação interditada pelo tribunal. A palavra interdita no início – isto é, proibida, mas também: dita nas margens, nos interstícios, nos intervalos do processo da história – assombra todo o julgamento, até que, mais à frente no filme, seu fantasma toma corpo numa irrupção, interrompendo os trâmites protocolares: com um canto inesperado, entre o pleito final da defesa e aquele da parte civil, Zegué Bamba faz soar uma língua que, para a maioria dos espectadores do filme, permanecerá estrangeira (pois Sissako não oferece qualquer legenda), exceto pela menção a ela no pleito da parte civil. Em todo caso, na bancada de testemunhas – que representa, no dispositivo do julgamento, o lugar da transparência comunicativa da palavra – o canto de Zegué Bamba introduz a opacidade incompreensível de uma estrangeiridade, que remete ao que Nwachukwu Frank Ukadike chama, no livro Black African Cinema, de “African traditional media”, isto é, mídias ou meios tradicionais africanos (o que costumamos designar com o nome de tradições orais). Assim como o canto de Zegué Bamba, a narrativa de Madou Keita e o silêncio de Samba Diakité introduzem na bancada de testemunhas o tema do direito de narrar.


Outra instância do tema do direito de narrar é o faroeste Death in Timbuktu, em que o próprio Sissako, o diretor palestino Elia Suleiman, o ator estadunidense Danny Glover, o diretor congolês Zeka Laplaine e outros representam uma estranha paródia dos westerns que povoam a imaginação cinematográfica mundial e que constituem uma das heranças mais marcantes de Hollywood. Reunidos diante da televisão, crianças, homens e mulheres assistem ao trecho de um filme inexistente. Segundo Sissako, Death in Timbuktu “foi uma maneira de mostrar que os cowboys não são todos brancos e que o Ocidente não é o único responsável dos males da África. Nós temos, nós também, nossa parte de responsabilidade.” A interpretação do diretor revela uma outra dimensão da questão do direito de narrar: juntamente com reivindicação da possibilidade de narrar sua própria história e de que ela seja reconhecida por outrem, o direito de narrar codifica, em Death in Timbuktu, a possibilidade de assumir a responsabilidade por sua própria história. (Um lado perverso e ambivalente do humanismo ocidental consiste justamente na vitimização do outro que se pretende salvar – desde a “missão civilizadora” que alimentou o projeto colonial até os discursos de ajuda humanitária e solidariedade transnacional que se associam cada vez mais a intervenções militarizadas – como se o outro não fosse capaz de agir por si mesmo, de modificar suas condições e de lutar contra os problemas que o afetam, precisando por isso de ajuda externa.) A violência gratuita dos cowboys, que assassinam um dos dois professores de um povoado (pois dois é demais, como dizem), remete à situação recorrente, na África pós-colonial (analisada, entre outros, por Achille Mbembe), de privatização do poder por figuras de autoridade que, em geral, se beneficiaram de sua atuação política nacionalista na luta pela independência e se converteram em ditadores que orientam seus governos para seus ganhos pessoais.


É sobre o pano de fundo da condição pós-colonial na África que pode se tornar legível o sonho de Samba Diakité, contado a Fodé e a Jean-Paul do outro lado do muro do quintal, depois de cortado o som do auto-falante que transmite o julgamento: “Eu tenho toda noite um sonho que me perturba. [...] Eu estou na escuridão… a luz… Em todo caso, não estou em casa. Nesse sonho, estou sentado e, diante de mim, há um grande saco. Ele está cheio de cabeças de chefes de Estado. Cada vez que eu mergulho minha mão lá dentro, é a mesma cabeça que eu pego. E quando eu a coloco de volta, meu sonho acaba e eu acordo. [...] Eu não sei se é um negro ou um branco. Em todo caso, é a mesma cabeça.” Exterior ao julgamento, o sonho perturbador de Samba Diakité tem como objeto central os chefes de Estados africanos, que são mencionados literalmente nos depoimentos e aparecem metaforicamente (ao menos na minha leitura) como parte do pano de fundo que dá sentido a Death in Timbuktu. Sem pretender interpretar de forma mais sistemática o conteúdo manifesto que as palavras de Samba Diakité reconstituem como seu sonho recorrente, seu pesadelo assombroso, que o assola a cada noite, é possível dizer que se trata de um dos elementos vitais (sejam fictícios ou não, pouco importa) que transbordam o enquadramento do dispositivo fictício do julgamento, num movimento crucial para a compreensão do filme.


A justiça que só o cinema se revela capaz de fazer, de criar, no dispositivo fictício elaborado por Sissako, não equivale a uma representação da justiça institucional (isto é, à encenação de um julgamento convencional, mesmo que imaginário), ultrapassando incessantemente suas fronteiras. Para fazer justiça, o aparelho cinematográfico deve se manter aberto: o filme só constrói a ficção na medida em que desconstrói seu dispositivo, abrigando inúmeros traços da vida que pulsa no cotidiano, no sonho de Samba Diakité, nos tecidos que as mulheres tingem, nas crianças que passeiam pelo quintal, no bar ao som das músicas cantadas por Melé. A construção da ficção do julgamento se entrelaça com a desconstrução de seu dispositivo, impulsionada pelas irrupções da vida, isto é, pelo que acontece – e isso inclui, em última instância, a morte. É o que se passa entre Melé, seu marido Chaka e sua filha Ina, delimitando um eixo melodramático que atravessa o filme e, embora não tome conta de seus ritmos, dá a seu desfecho um peso simbólico talvez insuportável. Diante da morte, o cinema de Abderrahmane Sissako assume, em Bamako, a tarefa política de imaginar – outra-mente – a vida possível.

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Marcelo é pesquisador e professor nas áreas de cinema e antropologia. Atualmente, é estudante de doutorado em Estudos Cinematográficos na Université de Montréal, onde desenvolve pesquisa sobre cinema e cosmopolitismo. - Blog do autor

Texto publicado no blog Amálgama, em 08/04/2011.

3 de abril de 2011

Mark Dornford-May - U-Carmen eKhayelitsha (2005)


África do Sul | Mark Dornford-May | 2005 | Musical | IMDB
Xhosa | Legenda: Português
122 min | XivD
544 x 336 | MPEG1/2 L3 128 kb/s | 25.000 fps 
999,7 MB

 U-Carmen eKhayelitsha / Carmen na África
Adaptação da ópera "Carmen", de Bizet, transposta para a cidade de Khayelitsha, na África do Sul dos dias de hoje. Carmen é uma trabalhadora que seduz um policial. Ele se torna completamente obcecado pela mulher, que resolve abandoná-lo. É tomado então por um acesso de ira e ciúme. A versão do diretor Mark Dornford-May combina músicas da ópera original com arranjos de música tradicional Africana. U-Carmen foi traduzida para Xhosa por Andiswa Kedama e Pauline Malefane, que no filme representam Amanda e Carmen respectivamente.
Ganhou o Urso de Ouro no Festival de Berlim 2005.

 
 

Crítica: Carmen na África

No início dos anos 80, chegaram aos cinemas três versões diferentes para a paixão obsessiva do soldado Don José pela cigana Carmen, escrita por Prosper Merimé. Exceção feita a Prénom Carmen, de Jean-Luc Godard, os filmes de Carlos Saura e de Francesco Rosi tinham por trás a sombra opressiva da ópera de Bizet – que se encontra, junto aos afrescos da capela Sistina de Michelangelo, à Monalisa de Leonardo Da Vinci, às sinfonias de Beethoven, ao Dom Quixote de Cervantes e às tragédias de Shakespeare, no seleto panteão das mais famosas criações artísticas da espécie humana. Em Carmen na África, surpreendente Urso de Ouro do último Festival de Berlim, o diretor Mark Dornford-May e o grupo Dimpho Di Kopane levam a tragédia de Merimé/Bizet para a periferia miserável e negra da África do Sul, enfrentando o mesmo problema que em geral assola as adaptações cinematográficas de óperas: a incapacidade de transpor a inverossimilhança teatral das ações e dos sentimentos operísticos para o espaço pretensamente realista engendrado pela narrativa fílmica.

Carmen na África se inicia com travellings que descortinam o gueto miserável de Sevilha, em Capetown. Referência nada sutil à cidade onde se passa a ópera de Bizet e o romance de Merimé, o subúrbio negro indica a tentativa de Mark Dornford-May de conectar o naturalismo do ambiente representado no filme à fantasia romântica contida nas obras que lhe servem de base. O projeto de misturar as árias cantadas pelos personagens com a narrativa dramática convencional (que pretende dar ao espectador a ilusão de realidade), porém, naufraga uma vez que, se na ópera a música se apresenta como a força-motriz que de fato leva os acontecimentos à frente, no filme as seqüências explicitamente operísticas apenas diluem a paixão trágica entre Carmen e Dom José, ao se contraporem e, em conseqüência, soarem forçadas em relação às demais cenas que integram Carmen na África. Em outras palavras: enquanto o clássico de Bizet se torna crível pelo respeito que mantém aos cânones do meio para o qual foi destinado, a adaptação de Mark Dornford-May se faz inverossímil na medida em que sujeita os números musicais aos ditames da estrutura cinematográfica, transformando aqueles em meros apêndices desta.

Para o cineasta, também está em jogo o suposto caráter universal da história criada por Merimé e consagrada por Bizet, que poderia ser transposta para qualquer época e para qualquer lugar. O resultado, visto em Carmen na África, mostra a busca pela fidelidade total ao enredo, ao mesmo tempo em que se verifica a adequação da trama ao contexto específico sul-africano. No entanto, as soluções encontradas por Mark Dornford-May são, mais das vezes, esdrúxulas: a Carmen que trabalha para a tabacaria Gipsy, em referência à origem cigana que ela possui na ópera; o tenor que surge vestido de toureiro na televisão, pois interpreta no filme o papel que corresponde, na ópera, ao da terceira ponta do triângulo amoroso que propicia a tragédia; a praça de touros transformada em igreja evangélica; o Dom José que, em lugar de soldado do exército, faz-se membro da polícia. Embora permaneçam atuais as ingerências a respeito da corrupção policial, dos abusos de autoridade, da pobreza generalizada das classes mais baixas e do contrabando como modelo possível de vida e alimentador da violência dentro da sociedade, as tentativas de associar os comportamentos dos personagens a traumas psicológicos advindos do passado do país – marcado pela política do apartheid – somente reiteram o empobrecimento da potência emocional existente na relação entre o ciúme de Don José e o anseio por liberdade de Carmen.

Carmen na África fica no meio do caminho entre a ópera e o cinema. Ao respeitar excessivamente Bizet, Mark Dornford-May acaba por traí-lo, já que trata a paixão desmedida, que leva os personagens à tragédia, como mero elemento decorativo da narrativa burocrática que conduz.
  
Paulo Ricardo de Almeida (Fonte)


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31 de março de 2011

Ousmane Sembène - Ceddo (1977)

 
Senegal | Ousmane Sembène | 1977 | Drama | IMDB
Wolof
| Legenda: Português/Francês (hardsub)/Inglês/Espanhol/Galício
120 min | XivD 
640 x 384MPEG1/2 L3 85 kb/s | 25.000 fps 
1,367 GB 
 
Ceddo
Crônica dramática sobre as disputas políticas e religiosas em uma aldeia africana, em um contexto em que convivem mercadores de escravos europeus, uma elite recém convertida ao Islamismo e parte da população local resistente à conversão (os Ceddo). A situação é agravada com o sequestro da filha do chefe, a princesa Dior.

"Ceddo is not a tribe, it is a state of mind." -- Ousmane Sembène

Vencedor do Berlin International Film Festival de 1977 (Interfilm Award).

 

Crítica, por Serge Daney

Na edição 304 da Cahiers du cinéma (outubro de 1979, p. 53), o crítico Serge Daney publicou uma crítica sobre Ceddo (1977). O texto foi republicado em A rampa (Cosac Naify, 2007), com visualização disponível no Google books:clique aqui.
(Fonte: retrovisor.
)


Entrevista com Sembene sobre o filme
Josie Fanon: Qual o sentido da palavra "Ceddo"?

Ousmane Sembene: Aqueles que atualmente são chamados Ceddo não são um grupo étnico. É uma palavra Pulaar (dialeto senegalês) que designa, de uma maneira ou de outra, aqueles que resistiram à escravidão. Ela significa aqueles que "conservam a tradição”. Os Ceddo são “o povo da resistência”.

JF: Seu filme me pareceu exatamente isso: resistência, rejeição ao Islamismo, uma descrição dos aspectos negativos da penetração do islamismo no oeste da África. Você não acha que Ceddo pode ser interpretado dessa maneira, especialmente nos países mulçumanos da África?

OS: Isso sugeriria que o filme foi mal-interpretado ou que eu me expressei insuficientemente. Ele não é essencialmente sobre o Islamismo, mas sobre seu uso nas sociedades tradicionais. Se eu quisesse fazer uma crítica ao Islamismo, eu teria focado nos versos do Alcorão. Eu nunca faria isso. Nós precisamos de coragem para enxergar as coisas de frente. Nesse momento nós vemos os líderes dos estados africanos brincando com a religião. Devemos ter coragem, em um estado laico, para determinar limites aos líderes espirituais. Meu medo mais profundo é que podemos cair nas mãos de um poder de direita que usa a religião.

JF: Em duas ocasiões um personagem do filme afirma que nenhuma fé não vale a vida de um homem.

OS: Eu disse e repito: nenhuma fé vale a vida de um homem. Nem Alá nem Deus valem a vida de um homem. Para mim, todas as religiões são de direita.

JF: O personagem do padre católico em Ceddo parece ser privilegiado quando comparado ao líder mulçumano. Isso pode significar que você prefere a religião católica ao Islamismo. Foi essa a sua intenção?

OS: Essa é uma interpretação subjetiva, superficial e errada do personagem do padre católico. Eu não fiz um filme sobre a religião católica. Isso não é problema meu nem do Senegal ou da África Ocidental. No filme, o padre está lá ao lado dos negociadores de armas. Eu quis mostrar a existência de três forças: o Islamismo, a Religião Católica e os Comerciantes. Duas religiões, das quais o Islamismo é a que mais tem penetração. Além disso, em Ceddo, a morte do líder muçulmano não determina o fim do Islamismo. Pelo contrário, o padre tem uma visão de uma igreja negra, mas seu sonho não vira realidade. Nós facilitamos a morte da religião católica e o crescimento do islamismo. Mais uma vez, a religião católica não é o nosso problema. E o islamismo enquanto religião não é o responsável.
A última imagem fo filme, quando a princesa Dior, depois da morte do líder muçulmano, passa no meio dos discípulos, indica obviamente uma continuidade dessa religião. O que está em questão é o abuso do Islamismo na África Ocidental num certo período.

JF: O que a princesa Dior representa? No final do filme, quando mata o líder muçulmano, ela simboliza a revolta popular, mas em outros momentos ela parece ser uma personagem passiva.

OS: Não, ela não é uma pessoa passiva. Ela é o reflexo de sua educação. E é confiante da sua posição, seu papel, mas ela pode mudar ao longo do tempo. É necessário evitar cair no erro de acreditar que as pessoas não podem mudar. O personagem da princesa Dior também representa os tempos modernos. A liberação da África não seria feita sem mulheres. Mas isso não significa que a participação da mulher durante a revolução equivale a disparar um tiro e depois voltar à cozinha. A última cena do filme também mostra que, seja qual for o sistema ou o poder, as mulheres irão persistir.

JF: Dos sete filmes de sua obra cinematográfica, Ceddo parece ser algo diferente. Ele corresponde a uma nova pesquisa?

OS: Eu gosto muito do que fiz nesse filme. Sem ser pretensioso, eu diria que o roteiro corresponde ao que eu queria fazer: despir a África dessas estruturas pelas quais ela está cercada, as plantas, as bananas, as mangas. Tentando, se isso é possível, mostrar o coração do homem, o cerne com suas contradições para que o filme possa ser usado como um recurso de reflexão, ou uma introdução para pensar sobre nós mesmos, no que fizemos, no que nós queremos fazer. Reflexão e não crítica gratuita, porque nós somos responsáveis pelo passado, pelas coisas boas assim como pelas coisas ruins. Nós também somos responsáveis pela presença neocolonial em nosso país. Os traficantes de armas ainda são os mesmos. Formalmente, nossas terras foram ocupadas, mas ao menos nós mantivemos nossas tradições. Hoje, eles ainda nos exploram conomicamente, mas também nos colonizam culturalmente em nossas casas, com a televisão, o cinema, com a impressa ocidental.


Trecho originalmente publicado em Ousmane Sembène: interviews / edited by Annett Busch and Max Annas, University Press of Mississipi, 2008.
Reproduzido aqui.
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28 de março de 2011

Abderrahmane Sissako - Bamako (2006)


Mali | Abderrahmane Sissako | 2006 | Drama | IMDB
Francês/Bambara | Legenda: Português/Francês/Inglês
115 min | XivD 
576 x 304 | AC3 448 kb/s | 25.000 fps 
1,36 GB (dois arquivos 698 MB)

Bamako
Cidadãos africanos decidem processar as instituições financeiras internacionais pelo estado de endividamento em que se encontra o continente. O julgamento se instaura nos jardins de uma casa em Bamako. Só que os procedimentos legais são recebidos com indiferença pelos habitantes locais, que seguem adiante com sua rotina. Entre eles estão Chaka e Melé. Ela é cantora num bar, ele está desempregado, e a relação dos dois passa por um momento difícil.

Participou da seleção oficial do Festival de Cannes de 2006, sendo exibido fora de competição. Ganhou o Grande Prêmio do Público nos Encontros Paris Cinéma de 2006.

17 de março de 2011

Rachid Bouchareb - Hors-la-loi (2010)

Argélia/França | Rachid Bouchareb | 2010 | Drama/Policial | IMDB
Árabe/Francês | Legenda: Português/Inglês/Francês
138 min | XivD 720x306 | MPEG 1 192 kb/s | 24.000 fps
1,928 GB

Hors-la-loi / Fora da lei
A luta pela libertação argelina vista através das vidas desavindas de três irmãos que são expulsos da Argélia com a mãe, após o massacre de Sétif em 1945. Massoud (Roschdy Zem) alista-se para a guerra da Indochina, Abdelkader (Sami Bouajila) lidera o movimento independentista argelino radicado em Paris e Saïd (Jamel Debbouze) faz fortuna nos clubes de boxe… Só o amor da mãe e a libertação da terra natal farão com que três homens com destinos tão diversos se reencontrem. Foi indicado ao Oscar como Melhor filme estrangeiro.







Crítica

Há muitas formas de se tocar numa ferida histórica. Ocorre-nos, por exemplo, a obra de Guillermo del Toro, El Laberinto del Fauno, ou o fenómeno mediático Der Untergang. O cinema americano, cujas máquinas mainstream e indie têm trazido, à luz do dia, estudos dolorosos em torno da história recente dos Estados Unidos, é especialmente pródigo na reavaliação de episódios históricos sensíveis e indigestos, próximos ou longínquos. O sobrestimado Hurt Locker, de Kathryn Bigelow, é um exemplo da construção contínua da memória operada pelas artes visuais americanas. Não é isso que se passa em França, aparentemente (à imagem de Portugal, acrescente-se). O burburinho causado por Hors la Loi, filme abrupto e irreflectido de Rachid Bouchareb (Indigènes), em Cannes e na cena intelectual francesa é uma consequência da sua raridade.

A história de três irmãos, Saïd (Jamel Debbouze), Abdelkader (Sami Bouaijla) e Messaoud (Roschdy Zem), injustamente expulsos das suas terras pelas forças colonizadoras e respectivo caudilho, é o tema narrativo essencial desta história simplista. Apesar da insistência na guerra pela independência da Argélia, trata-se de uma saga familiar pura, com um toque muito suave de film noir, que pretende contar a história da geração que viria a perfilhar os chamados beurs (não usamos o termo de forma inocente). Obrigados a abandonar a Argélia, os três irmãos tomarão caminhos diversos, mas voltarão a encontrar-se. Nada de novo ou inovador, por aqui. Abdelkader, o prototípico intelectual independentista, transporta, consigo, a marca incandescente da FLN, facção radical que viria a adquirir, nos anos 1990, uma notoriedade acrescida; vemos, no seu semblante, a mesma hesitação inicial de Michael Corleone e, de forma menos hábil que n’ O Padrinho II, uma metamorfose completa, que se completa na catarse final. Saïd, trancado na figura demasiado marcada de Jamel Debbouze, pretende tornar-se um membro de pleno direito do banlieu e, numa cena particularmente reveladora do desinteresse de Bouchareb pelo desenvolvimento da narrativa e das personagens, torna-se, após uma curta conversa com alguém de gabardina negra, proxeneta, depois empresário de um pugilista e, por fim, alvo da FLN. Assim. Sem mais nem menos. Pouco interessado nas diatribes politizadas de Abdelkader, Saïd prefere amealhar todos os francos que pode, ao alheio do combate da FLN. As consequências serão, já se vê, desastrosas. Messaoud, a personagem mais interessante de todo o filme – o semblante de Zem contribui, e muito, para a sensação de profundidade –, acaba por achar-se num campo de prisioneiros, em plena Indochina, deixando que um altifalante plante, no seu âmago, as sementes da luta. Em breve, Messaoud ver-se-á a braços com a proverbial tensão entre imperativo moral e dever patriótico. A relação entre Abdelkader e Messaoud é especialmente confrangedora: não surge um diálogo ou uma alusão às posições de cada um, na cena que seria, provavelmente, o epicentro emocional do filme. Ou seja, o olhar de Zem não é devidamente aproveitado por Bouchareb e a figura de Abdelkader aproxima-se da caricatura panfletária.


Eventualmente, os três irmãos são obrigados a optar entre a fraternidade sanguínea e a comunidade imaginada pela FLN. Uma tragédia seguir-se-á. Estamos nos anos 1950 e os acordos de Evian ainda distam alguns meses sangrentos. Mas Bouchareb crê que a narrativa não necessita de outra conclusão.


O problema não é de Hors la Loi. É do outro filme. Toda a gente que se interessa pela história da libertação da ocupação imperial no continente africano sabe de que falo. Claro, da obra de Gillo Pontecorvo, A Batalha de Argel. Da potência demolidora de uma das maiores obras cinematográficas do século XX. Em comparação, a miscelânea de géneros tentada por Bouchareb parece-nos sensaborona. Embora os planos sobre o massacre de Sétif sejam sugestivos, o realizador exagerou nas fórmulas e não abordou o material com a agressividade que seria, talvez, necessária. Ainda que esta seja, acima de tudo, a saga de uma geração esmagada pela história – as tensões recentes nos arrondissements parisienses derivam, em parte, deste esmagamento –, é demasiado sensaborona e experimentalista no pior dos sentidos. Ou seja, procura misturar o film noir, a saga familiar e o melodrama, sem mostrar algum cuidado com as personagens e a riqueza do contexto.


Percebemos, de fora, por que razão Hors la Loi motivou um debate tão aceso e animou Cannes. Não foi a proficiência de Bouchareb, mas o poder do cinema, capaz de torcer a lâmina dentro de feridas históricas e episódios mal resolvidos, como o massacre de Sétif (cuja filmagem é uma das genuínas originalidades deste filme). Quando, por estas bandas, nos decidirmos a ficcionar a ocupação colonial, talvez ocorra um fenómeno semelhante. De preferência, com uma realização mais subtil e atenta.


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Créditos do arquivo a mfcorrea, no MakingOff.

10 de março de 2011

Idrissa Ouedraogo - Yaaba (1989)



Burkina Faso | Idrissa Ouedraogo | 1989 | Drama | IMDB
More | Legenda: Português/Inglês/Espanhol/Francês (no torrent)
  90 min | XivD
672 x 384 | MPEG 1/2 L3 128 kb/s | 25.000 fps
700 MB

Yaaba
Bila, um menino de dez anos, observa a vida de sua vila More. Ele faz amizade com uma anciã que a comunidade acusa de feitiçaria. Pouco a pouco, nasce uma cumplicidade entre eles. Enquanto isso, uma série de sub-tramas se desenrolam, vista sob o olhar do garoto.

"Yaaba significa em língua moré, a avó. É assim que Bila, um rapaz de doze anos, chama a Sana, uma mulher velha e rejeitada por toda aldeia. Yaaba é essencialmente a história de uma amizade. O ponto de partida é a recordação de um conto de minha infância e de uma forma de educação noturna que adquirimos entre os sete e os dez anos, mesmo antes de adormecer, quando temos a sorte de termos uma avó." Idrissa Ouedraogo

Vencedor dos prêmios:
1989: Prêmio da Crítica no Festival de Cannes
1989: Prêmio do Público e Prêmio da Melhor Música no FESPACO (Festival Pan-africano de Cinema e TV de Ouagadougou)
1989: Prêmio de Ouro do Tokyo International Film Festival
 

24 de fevereiro de 2011

Ababacar Samb-Makharam - Jom (1982)


Senegal | Ababacar Samb-Makharam | 1982 | Drama | IMDB
Wolof | Legenda: Português
  73 min | XviD 720 x 448 | MPEG1/2 L3 115 kb/s | 29.970 fps
1.17 GB

Jom / Jom, ou a História de um Povo
Uma greve de operários estoura numa fábrica. Dois grupos envolvidos na revolta divergem quanto ao rumo político a ser tomado. A partir deste enredo, o filme apresenta a história de personagens que resistiram a diversos gêneros de opressão, entre eles, um líder africano que se recusou a obedecer os primeiros colonizadores.  





Sobre o diretor
Ababacar Samb Makharam nasceu em 1934 em Dakar, Senegal, e morreu em 1987. Em 1955, estudou no Conservatório de Arte Dramáticade Paris e fundou com Sarah Maldoror a trupe de teatro Les griots. Como ator, ele obteve pequenos papéis, notavelmente no Tamango de John Berry e Les Tripes au soleil de Claude Bernard Aubert. Em 1958, ele retornou ao Senegal onde trabalhou para a rádio e a televisão.
Fervoroso defensor dos cinemas da África, consagrou uma boa parte de seu tempo à Federação Panafricana dos Cineastas (FEPACI) de 1972 a 1976, enquanto secretário geral. Ababacar Samb realizou grandes filmes: Et la Neige n'était plus, Kodou (apresentado à Semaine Internationale de la Critique au festival de Cannes) e Jom.

Crítica
O cineasta senegalês Ababacar Samb diz: "Jom é uma palavra wolof que não tem equivalente em inglês ou francês. Jom significa coragem, dignidade, respeito... É a origem de todas as virtudes." Um griot viaja exuberantemente através do tempo e da memória coletiva de Senegal para capturar situações ligadas apenas por dizerem respeito aos conceitos de honra e dignidade,a importância de se manter a palavra e não se deixar comprar ou corromper. Para celebrar o conceito, Samb utiliza o griot como o nexo de múltiplas histórias contidas na memória coletiva do Senegal.Para inspirar trabalhadores em greve, o griot conta a história de um príncipe lendário, Dieri Dior Ndella, que sacrificou sua vida durante o colonialismo, e Koura Thiaw, um artista que assumiu a causa de domésticas oprimidas nos anos 1940, ambos se tornando heróis para seu povo.  



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Créditos da postagem a GuilhermeBH, no MakingOff.