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28 de março de 2011

Abderrahmane Sissako - Bamako (2006)


Mali | Abderrahmane Sissako | 2006 | Drama | IMDB
Francês/Bambara | Legenda: Português/Francês/Inglês
115 min | XivD 
576 x 304 | AC3 448 kb/s | 25.000 fps 
1,36 GB (dois arquivos 698 MB)

Bamako
Cidadãos africanos decidem processar as instituições financeiras internacionais pelo estado de endividamento em que se encontra o continente. O julgamento se instaura nos jardins de uma casa em Bamako. Só que os procedimentos legais são recebidos com indiferença pelos habitantes locais, que seguem adiante com sua rotina. Entre eles estão Chaka e Melé. Ela é cantora num bar, ele está desempregado, e a relação dos dois passa por um momento difícil.

Participou da seleção oficial do Festival de Cannes de 2006, sendo exibido fora de competição. Ganhou o Grande Prêmio do Público nos Encontros Paris Cinéma de 2006.

27 de março de 2011

Hussein Kamal - Thartharah fawq al-Nil (1971)


Egito | Hussein Kamal | 1971 | Drama/Comédia | IMDB
Árabe | Legenda: Português
120 min | XivD
576x432 | MPEG 1 119 kb/s | 25.000 fps 734 MB

Thartharah fawq al-Nil / À Deriva sobre o Nilo
 
Aniss Zaki trabalha (ou fica sentado) em uma repartição pública enfadonha, repleta de burocracia. A maior parte do tempo ele passa sonhando e divagando sobre sua existência sob o efeito do haxixe. Sua rotina é transformada quando conhece um círculo de intelectuais burgueses que passam suas tardes em um barco ancorado, fumando haxixe em narguilês, dançando e festejando. Alguns flertaram com ideais revolucionáros na juventude, mas agora, às vésperas da Guerra dos Seis Dias (1967), eles apenas expressam alienação de desejo de escape da realidade.
O filme fala abertamente não só sobre drogas, mas também de sexualidade, responsabilidade política e alienação. "Baseado" na novela do Prêmio Nobel de Literatura, Naguib Mahfouz. 

Hussein Kamal (1932-2003) é natural do Cairo. Pertenceu à nova geração que, seguindo os passos de Salah Abouseif, Henry Barakat e Kamal al-Sheikh, entre outros, abraçou o realismo na década de 1960 como forma de veicular o melodrama. Tornou-se um dos diretores egípcios de maior sucesso no cinema e na televisão. (Fonte)








Download direto
http://www.filesonic.com/file/201523341/Tharthara.Fawq.Al-Nil.1971.DVDRIP.XviD.avi.001
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http://www.filesonic.com/file/201523361/Tharthara.Fawq.Al-Nil.1971.DVDRIP.XviD.avi.003


Por favor, semeie! Semear é muito importante para que outras pessoas tenham acesso ao filme.

Crédito da legenda e da postagem a ceronte, no MakingOff. 

17 de março de 2011

Rachid Bouchareb - Hors-la-loi (2010)

Argélia/França | Rachid Bouchareb | 2010 | Drama/Policial | IMDB
Árabe/Francês | Legenda: Português/Inglês/Francês
138 min | XivD 720x306 | MPEG 1 192 kb/s | 24.000 fps
1,928 GB

Hors-la-loi / Fora da lei
A luta pela libertação argelina vista através das vidas desavindas de três irmãos que são expulsos da Argélia com a mãe, após o massacre de Sétif em 1945. Massoud (Roschdy Zem) alista-se para a guerra da Indochina, Abdelkader (Sami Bouajila) lidera o movimento independentista argelino radicado em Paris e Saïd (Jamel Debbouze) faz fortuna nos clubes de boxe… Só o amor da mãe e a libertação da terra natal farão com que três homens com destinos tão diversos se reencontrem. Foi indicado ao Oscar como Melhor filme estrangeiro.







Crítica

Há muitas formas de se tocar numa ferida histórica. Ocorre-nos, por exemplo, a obra de Guillermo del Toro, El Laberinto del Fauno, ou o fenómeno mediático Der Untergang. O cinema americano, cujas máquinas mainstream e indie têm trazido, à luz do dia, estudos dolorosos em torno da história recente dos Estados Unidos, é especialmente pródigo na reavaliação de episódios históricos sensíveis e indigestos, próximos ou longínquos. O sobrestimado Hurt Locker, de Kathryn Bigelow, é um exemplo da construção contínua da memória operada pelas artes visuais americanas. Não é isso que se passa em França, aparentemente (à imagem de Portugal, acrescente-se). O burburinho causado por Hors la Loi, filme abrupto e irreflectido de Rachid Bouchareb (Indigènes), em Cannes e na cena intelectual francesa é uma consequência da sua raridade.

A história de três irmãos, Saïd (Jamel Debbouze), Abdelkader (Sami Bouaijla) e Messaoud (Roschdy Zem), injustamente expulsos das suas terras pelas forças colonizadoras e respectivo caudilho, é o tema narrativo essencial desta história simplista. Apesar da insistência na guerra pela independência da Argélia, trata-se de uma saga familiar pura, com um toque muito suave de film noir, que pretende contar a história da geração que viria a perfilhar os chamados beurs (não usamos o termo de forma inocente). Obrigados a abandonar a Argélia, os três irmãos tomarão caminhos diversos, mas voltarão a encontrar-se. Nada de novo ou inovador, por aqui. Abdelkader, o prototípico intelectual independentista, transporta, consigo, a marca incandescente da FLN, facção radical que viria a adquirir, nos anos 1990, uma notoriedade acrescida; vemos, no seu semblante, a mesma hesitação inicial de Michael Corleone e, de forma menos hábil que n’ O Padrinho II, uma metamorfose completa, que se completa na catarse final. Saïd, trancado na figura demasiado marcada de Jamel Debbouze, pretende tornar-se um membro de pleno direito do banlieu e, numa cena particularmente reveladora do desinteresse de Bouchareb pelo desenvolvimento da narrativa e das personagens, torna-se, após uma curta conversa com alguém de gabardina negra, proxeneta, depois empresário de um pugilista e, por fim, alvo da FLN. Assim. Sem mais nem menos. Pouco interessado nas diatribes politizadas de Abdelkader, Saïd prefere amealhar todos os francos que pode, ao alheio do combate da FLN. As consequências serão, já se vê, desastrosas. Messaoud, a personagem mais interessante de todo o filme – o semblante de Zem contribui, e muito, para a sensação de profundidade –, acaba por achar-se num campo de prisioneiros, em plena Indochina, deixando que um altifalante plante, no seu âmago, as sementes da luta. Em breve, Messaoud ver-se-á a braços com a proverbial tensão entre imperativo moral e dever patriótico. A relação entre Abdelkader e Messaoud é especialmente confrangedora: não surge um diálogo ou uma alusão às posições de cada um, na cena que seria, provavelmente, o epicentro emocional do filme. Ou seja, o olhar de Zem não é devidamente aproveitado por Bouchareb e a figura de Abdelkader aproxima-se da caricatura panfletária.


Eventualmente, os três irmãos são obrigados a optar entre a fraternidade sanguínea e a comunidade imaginada pela FLN. Uma tragédia seguir-se-á. Estamos nos anos 1950 e os acordos de Evian ainda distam alguns meses sangrentos. Mas Bouchareb crê que a narrativa não necessita de outra conclusão.


O problema não é de Hors la Loi. É do outro filme. Toda a gente que se interessa pela história da libertação da ocupação imperial no continente africano sabe de que falo. Claro, da obra de Gillo Pontecorvo, A Batalha de Argel. Da potência demolidora de uma das maiores obras cinematográficas do século XX. Em comparação, a miscelânea de géneros tentada por Bouchareb parece-nos sensaborona. Embora os planos sobre o massacre de Sétif sejam sugestivos, o realizador exagerou nas fórmulas e não abordou o material com a agressividade que seria, talvez, necessária. Ainda que esta seja, acima de tudo, a saga de uma geração esmagada pela história – as tensões recentes nos arrondissements parisienses derivam, em parte, deste esmagamento –, é demasiado sensaborona e experimentalista no pior dos sentidos. Ou seja, procura misturar o film noir, a saga familiar e o melodrama, sem mostrar algum cuidado com as personagens e a riqueza do contexto.


Percebemos, de fora, por que razão Hors la Loi motivou um debate tão aceso e animou Cannes. Não foi a proficiência de Bouchareb, mas o poder do cinema, capaz de torcer a lâmina dentro de feridas históricas e episódios mal resolvidos, como o massacre de Sétif (cuja filmagem é uma das genuínas originalidades deste filme). Quando, por estas bandas, nos decidirmos a ficcionar a ocupação colonial, talvez ocorra um fenómeno semelhante. De preferência, com uma realização mais subtil e atenta.


 Por favor, semeie! Semear é muito importante para que outras pessoas tenham acesso ao filme.
 
 
Créditos do arquivo a mfcorrea, no MakingOff.

10 de março de 2011

Idrissa Ouedraogo - Yaaba (1989)



Burkina Faso | Idrissa Ouedraogo | 1989 | Drama | IMDB
More | Legenda: Português/Inglês/Espanhol/Francês (no torrent)
  90 min | XivD
672 x 384 | MPEG 1/2 L3 128 kb/s | 25.000 fps
700 MB

Yaaba
Bila, um menino de dez anos, observa a vida de sua vila More. Ele faz amizade com uma anciã que a comunidade acusa de feitiçaria. Pouco a pouco, nasce uma cumplicidade entre eles. Enquanto isso, uma série de sub-tramas se desenrolam, vista sob o olhar do garoto.

"Yaaba significa em língua moré, a avó. É assim que Bila, um rapaz de doze anos, chama a Sana, uma mulher velha e rejeitada por toda aldeia. Yaaba é essencialmente a história de uma amizade. O ponto de partida é a recordação de um conto de minha infância e de uma forma de educação noturna que adquirimos entre os sete e os dez anos, mesmo antes de adormecer, quando temos a sorte de termos uma avó." Idrissa Ouedraogo

Vencedor dos prêmios:
1989: Prêmio da Crítica no Festival de Cannes
1989: Prêmio do Público e Prêmio da Melhor Música no FESPACO (Festival Pan-africano de Cinema e TV de Ouagadougou)
1989: Prêmio de Ouro do Tokyo International Film Festival
 

9 de março de 2011

Lee Isaac Chung - Munyurangabo (2007)

 
Ruanda | Lee Isaac Chung | 2007 | Drama | IMDB
Kinyarwanda | Legenda: Português
  93 min |
DivX 640 x 368 | MPEG 1 128 kb/s | 30.000 fps
1.1 GB

Munyurangabo 
Depois de roubar um facão num mercado em Kigali, Munyurangabo e seu amigo Sagwa deixam a cidade numa jornada conectada aos próprios passados. Munyurangabo quer justiça para os pais que foram mortos no genocídio, e Sangwa quer visitar a casa que abandonou há anos. De duas tribos distintas, a amizade entre os dois é posta à prova quando os preocupados pais de Sangwa desaprovam Munyurangabo, alegando que "Hutis e Tutis foram feitos para serem inimigos". Este é o primeiro filme rodado no dialeto kinyarwanda, de Ruanda, e tem o elenco formado por atores não-profissionais.



Por favor, semeie! Semear é muito importante para que outras pessoas tenham acesso ao filme.

Créditos da postagem a Marcelo Mangini, no MakingOFF.

 

Download direto
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24 de fevereiro de 2011

Ababacar Samb-Makharam - Jom (1982)


Senegal | Ababacar Samb-Makharam | 1982 | Drama | IMDB
Wolof | Legenda: Português
  73 min | XviD 720 x 448 | MPEG1/2 L3 115 kb/s | 29.970 fps
1.17 GB

Jom / Jom, ou a História de um Povo
Uma greve de operários estoura numa fábrica. Dois grupos envolvidos na revolta divergem quanto ao rumo político a ser tomado. A partir deste enredo, o filme apresenta a história de personagens que resistiram a diversos gêneros de opressão, entre eles, um líder africano que se recusou a obedecer os primeiros colonizadores.  





Sobre o diretor
Ababacar Samb Makharam nasceu em 1934 em Dakar, Senegal, e morreu em 1987. Em 1955, estudou no Conservatório de Arte Dramáticade Paris e fundou com Sarah Maldoror a trupe de teatro Les griots. Como ator, ele obteve pequenos papéis, notavelmente no Tamango de John Berry e Les Tripes au soleil de Claude Bernard Aubert. Em 1958, ele retornou ao Senegal onde trabalhou para a rádio e a televisão.
Fervoroso defensor dos cinemas da África, consagrou uma boa parte de seu tempo à Federação Panafricana dos Cineastas (FEPACI) de 1972 a 1976, enquanto secretário geral. Ababacar Samb realizou grandes filmes: Et la Neige n'était plus, Kodou (apresentado à Semaine Internationale de la Critique au festival de Cannes) e Jom.

Crítica
O cineasta senegalês Ababacar Samb diz: "Jom é uma palavra wolof que não tem equivalente em inglês ou francês. Jom significa coragem, dignidade, respeito... É a origem de todas as virtudes." Um griot viaja exuberantemente através do tempo e da memória coletiva de Senegal para capturar situações ligadas apenas por dizerem respeito aos conceitos de honra e dignidade,a importância de se manter a palavra e não se deixar comprar ou corromper. Para celebrar o conceito, Samb utiliza o griot como o nexo de múltiplas histórias contidas na memória coletiva do Senegal.Para inspirar trabalhadores em greve, o griot conta a história de um príncipe lendário, Dieri Dior Ndella, que sacrificou sua vida durante o colonialismo, e Koura Thiaw, um artista que assumiu a causa de domésticas oprimidas nos anos 1940, ambos se tornando heróis para seu povo.  



 Por favor, semeie! Semear é muito importante para que outras pessoas tenham acesso ao filme.

Créditos da postagem a GuilhermeBH, no MakingOff.

4 de fevereiro de 2011

Sherif Arafa - Welad El Am (2009)


Egito | Sherif Arafa | 2009 | Ação/Drama | IMDB
Árabe/Hebraico | Legenda: Português/English

  120 min |
H.264 720 x 318 | AAC LC 162 kb/s | 25.000 fps 
1.526 GB

Welad El Am / Primos
Uma mulher muçulmana egípcia descobre que seu marido é na verdade um espião judeu do Mossad. Ele a raptou junto de seus 2 filhos e tenta convencê-la a viver pacificamente com ele em Israel. Mostafa, um agente da Inteligência Egípcia, foi enviado para Israel e tenta ajudar Salwa e seus filhos a retornarem ao Egito.








 

 Por favor, semeie! Semear é muito importante para que outras pessoas tenham acesso ao filme.

Créditos da postagem a seogaldino, no MakingOff.

2 de fevereiro de 2011

Ousmane Sembène - Moolaadé (2004)


Senegal/França/Burkina Faso/Camarões/Marrocos/Tunísia | Ousmane Sembène | 2004 | Drama | IMDB
Bambara/Francês | Legenda: Inglês/Português

120 min | XviD 
672 x 368 | 1.483 kb/s | 1.483 kb/s AC3 | 25.000 fps
1,36 GB
 
Numa aldeia africana, persiste o costume brutal da Mutilação Genital Feminina, numa operação dolorosa e temida por todas. Seis meninas, com idades entre 4 e 9 anos, devem passar pelo ritual num determinado dia. Quatro delas buscam a proteção de Collé, uma mulher que não permitiu que a filha fosse mutilada, invocando a “mooladé” (proteção sagrada), indicada por uma corda colorida. Enquanto usarem essa corda, ninguém na aldeia poderá tocá-las. Mas vários homens pressionam o marido de Collé para que retire a proteção, nem que para isso ele tenha de chicoteá-la. 
 
O filme foi premiado 6 vezes e foi o último filme de Ousmane Sembene, que faleceu aos 84 anos de idade em 2007.
 
 
 



 
  

 

Crítica: Moolaadé

Imagina-se Ousmane Sembene à maneira como ele apresenta a personagem de Colle: alguém que sabe exatamente o que quer. Não é o único, mas esse direcionamento claro, essa exatidão, essa precisão de proposta talvez seja o maior trunfo de Moolaadé. Normalmente, quando somos confrontados a ficções políticas de esquerda, o diretor parece ficar nos pedindo desculpas o tempo inteiro por politizar o discurso: vemos então tentativas frouxas de criar romances, intrigas romanescas, artifícios de roteiro destinados a aproximar o espectador convencional, a fazer do filme "um filme". Naturalmente, essas tentativas volta e meia são falidas porque nem conseguem cativar o mínimo de interesse por parte do diretor, que vê nelas apenas uma concessão para atenuar a carga do discurso. Em Moolaadé, nada disso. Nenhuma manobra diversionista, nenhuma subtrama que nos desligue da temática central, uma frontalidade que chega a ser ofensiva. Ousmane Sembene sabe que cinema político não é a adição de um conteúdo a uma estrutura conhecida (a dos filmes convencionais), mas a subtração de uma série de confetes espetaculares que mantém uma relação ilusionista com o espectador. E quanto mais direto um filme for com seu tema, quanto mais austera for a relação com o espectador, melhor o resultado será atingido. E Moolaadé é uma única linha reta com destino à resistência, ao questionamento, às tensões nascidas da relação entre a tradição e a modernidade.

Moolaadé nos instala de imediato num vilarejo africano longínquo. A distância de qualquer cidade grande é sublinhada pela banca de mercadorias capitaneada por Mercenaire, um comerciante mulherengo e aproveitador que superfatura seus produtos por ser o único da região. Num dia como outro qualquer, algumas meninas aparecem em frente à casa de Colle, uma portentosa mulher que anos atrás não permitiu que sua filha fosse mutilada em seus órgãos genitais, conforme a tradição da tribo. Esse grupo de meninas pede que ela, como única na tribo que já se sensibilizou por essa situação, proteja-as como anteriormente protegera sua filha. Colle então invoca a moolaadé, proteção sagrada que só pode ser revogada por aquela que a proclamou, e que estabelece um espaço como intocável por aqueles que não forem convidados a entrar. A partir da invocação da proteção, o filme funciona em estrutura de cascata. Primeiro as mães vão reclamar suas filhas, depois os anciãos da cidade, e por fim o clímax, com a chegada do marido e as chicotadas em praça pública. É engraçado fazer um tipo de comparação com os filmes que geralmente seguem um percurso semelhante. Eles fatalmente tenderiam a dramatizar a dúvida da personagem, a criar suspense em cima de seu sofrimento e de sua posição cada vez mais solitária no seio daquela sociedade. Ora, Moolaadé não está disposto a usar esses truques narrativos com seu espectador. Sua dramaturgia em linha reta exige que Colle não titubeie em nenhum momento, que ela seja a recipiente perfeita da mudança, da contestação, que ela seja a encarnação de uma idéia.

Porque o objetivo de Ousmane Sembene é claramente o de discutir uma idéia, e de criar uma ficção unicamente com o fim de desenvolvê-la e dramatizá-la. Talvez essa seja a grande diferença que sobressai comparando mentalmente a experiência de assistir a Moolaadé com a experiência de assistir a outros filmes "políticos". A primeira impressão é que Moolaadé parece "primário" em comparação, impregnado da "mensagem" que tem para passar e sem nenhuma operação expressiva além disso, mas é justamente o contrário. Mal acostumados que estamos aos protocolos de um cinema "sério", temos o pendor instintivo de medir o "mínimo de dramaturgia aceitável" comparando-o com a média dos filmes que nos interessa (e, convenhamos, a exibição em DVD na Mostra de São Paulo acabou com toda fruição da fotografia que poderíamos ter do filme). Mas Sembene busca outro tipo de expressão, e nesse sentido é tão minucioso quanto Straub-Huillet ou Brakhage em seus respectivos ramos, só que talvez mais incompreendido, porque seus fins não são imediatamente plásticos, ou de embevecimento. Moolaadé é um filme de ação, um filme que partilha do desejo de pura denotação a fim de estabelecer uma arte materialista, que nos forneça as condições materiais de uma dada situação (como era que Godard dizia? Uma análise precisa de uma situação precisa) e faça toda ação derivar das injustiças mostradas no estudo preciso do estado de coisas. Moolaadé começa morno, talvez até desajeitado, mas nos pega pelo braço e termina épico, como se Brecht jamais tivesse tido melhor seguidor no cinema. Não é o filme mais ousado de Ousmane Sembene, mas Moolaadé nos deixa feliz por reavivar uma posição em relação ao cinema e à vida que nos emociona, numa área – o "cinema político" – que geralmente costuma nos desabonar justamente por não ser sincero o suficiente, por ser mais retórico do que eficaz. Sembene, ao contrário, faz seu cinema com suas vísceras, e com precisão impecável.

Ruy Gardnier


Por favor, semeie! Semear é muito importante para que outras pessoas tenham acesso ao filme.

Créditos da postagem a deadmeadow, no MakingOff.

30 de janeiro de 2011

Idrissa Ouedraogo - Yam Daabo (1986)



Burkina Faso | Idrissa Ouedraogo | 1986 | Drama | IMDB
More | Legenda: Português/English (hardsub)/Japonês (hardsub)
80 min | XviD 512 x 384 | MPEG1/2 L3 172 kb/s | 25.000 fps 700 MB

Yam Daabo / A Escolha 
Um triângulo amoroso encenado nas paisagens da Burquina Fasso é o que nos apresenta, num de seus primeiros trabalhos, o diretor burquinabé Idrissa Ouedraogo. Trata-se de uma simples história humana e ao mesmo tempo uma profunda meditação sobre a justiça divina. O pano de fundo é a história de uma família pobre que migra para o sul fugindo da miséria e se depara com surpresas.
Familiares do diretor fazem parte da maioria do elenco. 

28 de janeiro de 2011

Ousmane Sembène - La noire de... (1966)


Senegal | Ousmane Sembène | 1966 | Drama | IMDB
Francês | Legenda: Espanhol/Português

65 min | XviD
640 x 480 | 1.390 kb/s | 128 kb/s MPEG1/2 L3 | 29.970 fps
609,3 MB

La noire de... (A negra de...)
Baseado em um conto homônimo de Sembene publicado em 1961, "La noire de..." conta a história de uma jovem senegalesa que vai trabalhar na França com o casal de franceses que a empregava em Dakar. Inicialmente animada com a perspectiva de conhecer a França, ela logo se vê desiludida, notando diferenças no tratamento que os patrões lhe dão. O filme trata de modo único os efeitos do colonialismo, do racismo e dos conflitos trazidos pelas identidades pós-coloniais na África e na Europa. Baseado em um caso real.





 

Crítica: Trabalho doméstico feminino 
e política do Terceiro Mundo em "La noire de..."

por Lieve Spass
 
Para Ousmane Sembene, o mais destacado diretor africano, o cinema pode tornar visível
os abusos do poder e tornar manifesto o que os governos gostariam de manter escondido. O cinema pode falar ao mundo ocidental sobre seu poder opressivo e a Senegal, seu país, e a outros países do Terceiro Mundo sobre sua opressão. O cinema, acredita Ousmane, supera o problema apresentado pelo analfabetismo no Terceiro Mundo, uma vez que é acessível tanto a letrados quanto a iletrados. Isso explica porque Sembene passou a usar o wolof ao invés do francês em seus filmes recentes. Ao usar o cinema para chamar atenção para a dicotomia Terceiro Mundo/Ocidente, Sembene contribui consideravelmente para o desenvolvimento do filme político.

Ousmane Sembène nasceu em Senegal em 1923. Começou a vida como pescador e depois foi para a École de Céramique at Marcassoum. A partir daí, seguiu para Dakar e trabalhou como encanador, pedreiro e aprendiz de mecânico. Serviu o exército francês na Segunda Guerra e após isso se tornou estivador e líder sindical em Marselha. Ansioso para fazer filmes, ele se voltou para Jean Rouch e outros cineastas, mas falhou em conseguir seu suporte. Em Moscou, ele passou um ano aprendendo cinema com o diretor pró-Stalinista Mark Donskoi. Seus filmes mais importantes são: "Borom Sarret" (1963), retratando o dia de um carroceiro em Dakar; "Tauw" (1971), mostrando o desespero de uma senegalesa de 20 anos que procura por trabalho nas docas de Dakar; "Emitai" (1971), no qual as mulheres de uma vila oferecem resistência em um conflito com os colonialistas franceses. "Xala" (1974) mostra o efeito paralizante de algumas das próprias tradições  africanas, bem como da opressão ocidental, uma opressão prolongada pelo governo do Senegal. Finalmente, o filme mais recente, "Ceddo" (1977), censurado no Senegal, foca nas estruturas islâmicas da opressão no período inicial da islamização. As experiências pessoais e realizações artísticas de Sembene se mesclam. Cada um de seus filmes questiona um problema social existente e também reflete as raízes políticas de Sembene, quer dizer, aquele de um intelectual africano europeizado com ligações norte-americanas, um artista comunista influenciado pelo neorealismo.

"La noire de..." é um filme enraizado na sociedade senegalesa. Isto quer dizer que a história da moça negra não representa uma história contida em si mesma, mas uma narrativa originada em uma sociedade existente. "La noire de...", portanto, exemplifica a importância de alguns filmes ficcionais chave para o estudo de uma sociedade. "La noire de...". O título em francês, "La noire de..." [A garota de...], contém uma ambiguidade. As reticências que seguem a preposição deixam indeterminado se ele significa a origem, quer dizer, vinda de um lugar específico, ou se é a forma possessiva. Esta indicaria que a garota negra é uma posse de alguém. As reticências evocam ambos os sentidos.

A composição visual de "La noire de..." explora a óbvia dicotomia do preto/branco. O cinema em preto e branco fornece a base formal e semântica do filme. Diouana veste um vestido branco com bolinhas pretas; sua mala é preta. O apartamento parece completamente feito em um esquema preto e branco. A comida preparada cai na mesma categoria - café preto, leite pasteurizado, arroz branco. Até o whisky consumido abundantemente pelos franceses carrega o selo "Preto e Branco". A oposição é encenada mais dramaticamente quando a câmera foca no corpo inerte de Diouana na banheira branca.

Em uma leitura supérflua, tal oposição pode parecer a marca de um diretor inexperiente. Apesar disso, o filme, ainda que um dos primeiros de Sembene, já contém sinais demais de sutileza para permitir tal interpretação. A estrutura binária óbvia do filme corresponde ao brutal sistema binário que está por trás de qualquer sistema de exploração e opressão, um sistema que divide o mundo em duas categorias opostas: os oprimidos e os opressores. Construindo uma rede de contrastes entre preto/branco, o filme não estabelece uma oposição entre mulher/homem com as mesmas linhas. A mulher negra é mais diretamente explorada não por um homem, mas por uma mulher branca. Além disso, ela obtém permissão de sua mãe, e não de um homem, para seguir seus patrões até a França. O trabalho doméstico pode, nesse sentido, ser apresentado como uma forma de exploração de todas as mulheres. Mas o contexto para o trabalho doméstico criado no filme sugere uma ligação entre o trabalho doméstico feminino e a estrutura política geral.

Analfabeta, Diouana não tem conhecimento da França além do adquirido através dos sedutores relatos verbais das francesas e das lustrosas fotografias de uma revista Elle trazida por seu namorado em uma de suas reuniões em Dakar. Sua imagem da vida na França é formada inteiramente a partir dessas representações das mulheres. Ela espera encontrar belas lojas, onde ela comprará roupas elegantes com o salário que ganha. A mulher da Elle em roupa de banho a leva a imaginar sua própria fotografia tirada na praia e enviada a Dakar, onde "eles ficarão com inveja". Ao invés disso, Diouana se torna virtualmente uma prisioneira em um apartamento francês. A França com que ela sonha é substituída pela quantidade de quartos que ela limpa, o barulho dos vizinhos que brigam no andar de cima, ou o "buraco negro" que ela percebe da janela enquanto olha para a baía negra dos Antibes.

Quanto mais Diouana fantasia a imagem apresentada a ela em Dakar, mais ela acumula raiva da francesa, que contribuiu para a criação da imagem. Ao invés de comprar belas roupas, Diouana é alvo de escárnio por parecer elegante demais nas roupas velhas da patroa. Ela recebe um avental e é solicitada que retire seus sapatos de salto alto em estilo ocidental. Enquanto carrega desalento em seu monólogo interior, ela nunca pronuncia uma palavra em voz alta além de "Sim, senhor" e "sim, senhora". O mais doloroso contraste entre expectativa e realidade diz respeito a "sua foto na praia". De fato, ela nunca é fotografada no mar. Ao invés disso, o espectador vê seu corpo inanimado na banheira. Imediatamente após isso, há um corte para pessoas em férias vestidas com roupas de banho na praia, que estão lendo a notícia de seu suicídio, que agora se tornou uma reportagem jornalística na seção de "acontecimentos locais" do jornal.

Ainda que o filme enfoque quase exclusivamente a situação de Diouana, sua exploração e morte não são apresentados como eventos isolados. O filme as liga à morte de outros senegaleses na Europa, nomeadamente aqueles que morreram na Primeira e Segunda Grande Guerras. Em seu estudo, Marsha Landy menciona essa ligação. Entretanto, a dimensão política dessa referência precisa de uma ênfase maior, especialmente à luz da atitude do namorado. Pouco antes da partida de Diouana para a França, ela e o namorado estão próximos ao monumento de  comemoração destes eventos. Uma breve visão de veteranos colocando uma coroa de flores no monumento passa pela mente do amigo. Quando Diouana, inconsciente da importância do monumento, dança de pés descalços sobre ele, festejando sua partida iminente para a França, o amigo fica indignado com o "sacrilégio" de Diouana e lhe diz que desça imediatamente.

A sequência tem uma implicação dupla. Primeiro, como menciona Landy, a dança de Diouana em um monumento de guerra profetiza sua morte. Segundo, a partida de Diouana para a França e seu suicídio lá se tornam ligados ao envolvimento político senegalês nas Grandes Guerras. O respeito do amigo pelo monumento revela o orgulho que ele carrega pela coragem e sacrifício de seus compatriotas senegaleses. Porém, ao ligar as duas formas de sacrifício, o filme sugere que seu idealismo é politicamente ingênuo. A ida de Diouana para a França faz um paralelo com a participação dos soldados nessas guerras. Esses soldados haviam ido para lutar pela liberdade da França; tiveram a "honra" de morrer pela "pátria mãe". De modo semelhante, o trabalho de Diouana liberta a mulher francesa e sua morte, ainda que auto-inflingida, não é diferente da do soldado. Seus pertences são devolvidos a Dakar. Suas roupas, como o uniforme de um soldado morto, são levados de volta para a mãe e uma quantia de dinheiro é oferecida em compensação. (1) A ligação de Diouana com os soldados sugere que por trás da exploração pública se esconde outra, mais profunda, escondida, e política.

Na França, a mulher francesa é retratada com a opressora manifesta, abertamente hostil e desrespeitosa. Em contraste, seu marido, o patrão branco, é retratado como um cavalheiro francês humano e moderadamente gentil, como alguns de seus gestos sugerem. Ele carrega a mala de Diouana, pergunta sobre sua viagem e recolhe o dinheiro que ela deixou cair. Ele demonstra compreensão por seu humor deprimido, compreende a sua possível nostalgia e necessidade de sair e até sugere férias para ela. Além disso, o filme não retrata uma exploração sexual estereotipada do patrão branco sobre a empregada. Ao contrário, o filme salienta sua própria ausência - em uma situação em que tal abuso sexual poderia ocorrer quando meio bêbado ou entediado, o patrão permanece sozinho com a doméstica negra. Em um confronto físico entre sua mulher e Diouana pela máscara africana, sua mulher vê apenas a "ingratidão" de Diouana. Em contraste, ele chama a atenção de sua mulher ao fato de que a máscara, ainda que outrora dada por Diouana, ainda pertencia à doméstica.

O incidente propõe uma oposição conflitante entre a placidez do marido e a raiva maldosa da esposa. De fato, a exploração de Diouana substitui a possível exploração da própria francesa. Quando Diouana se rebela, a empregada representa uma ameaça real para a esposa, mas não para o marido, como a própria observação de Diouana transparece:

    "Nunca mais ela me dirá: 'Diouana, lave as camisas do patrão'."

Uma vez que não é diretamente ameaçado pela possível rebelião de Diouana, o marido pode ser civilizado e mais humano. Mesmo assim, ele ainda funciona no contexto geral da exploração capitalista. Ao ver a angústia de Diouana, ele imediatamente se oferece para pagá-la. Após sua morte, é ele quem oferece compensação financeira para a mãe em Dakar. Filha e mãe recusam o dinheiro.  Na recusa, elas rejeitam um sistema no qual o trabalho se torna uma mercadoria e dinheiro, um meio de pagar pela morte.

A opressão doméstica de Diouana, expressa e encarnada pela mulher branca, encobre todo um sistema político de exploração do qual não apenas o marido faz parte, mas se estende ao próprio país de Diouana. De fato, o filme sugere que o governo senegalês e a elite negra participam inteiramente na manutenção da opressão capitalista. Relações amistosas entre França e Senegal, advogadas pelo presidente Senghor, são claramente criticadas no filme de Sembene. Em uma festa no apartamento do casal, discutindo suas próprias condições de trabalho no Senegal, eles explicam as vantagens materiais oferecidas pelos acordos governamentais: uma grande parte do seu salário pago na França, moradia garantida, retorno à França duas vezes por ano, etc... Quando os convidados perguntam sobre a segurança, os colonos respondem: "enquanto Senghor estiver lá, as coisas estão seguras".(2)


Ainda que abertamente crítico com relação a tais acordos que institucionalizam e promovem o colonialismo, "La noire de..." também mostra que, às vezes, a opressão está solidamente estabelecida no próprio Terceiro Mundo. De fato, o filme sugere que tanto o grupo intelectual ao qual o namorado de Diouana pertence quanto políticos negros condenam a opressão. Ao mesmo tempo em que se coloca claramente contra a partida de Diouana para a França como empregada doméstica, o namorado senegalês não faz nada para deter sua decisão. Ele abraça valores africanos, visualmente retratados por uma bandeira em seu quarto honrando o advogado da liberdade do Congo, Patrice Lumumba. Ainda assim, ele também demonstra um orgulho ingênuo ao suicídio político dos soldados senegaleses e contribui para a mitificação consumista que Diouana faz da França, fornecendo-lhe a revista Elle.

O filme revela em várias ocasiões a atitude ambígua da elite negra senegalesa. Enquanto Diouana procura por trabalho nas áreas modernas de Dakar, ela passa por três políticos senegaleses bem vestidos que saem da Assembléia Nacional. Ao ver Diouana em um vestido africano, um desses três aconselha os outros a falarem mais baixo, claramente temendo que essa representante "do povo" ("Fui eleito pelo povo") possa ouvir suas maquinações políticas para promover seus próprios interesses.

A elite política não é o único alvo da crítica de Sembene; ele também critica a classe intelectual representada pelos escritores de cartas públicos, professores e estudantes. O primeiro flashback do filme, uma cena em Dakar, mostra uma máscara africana que um garotinho, presumivelmente o irmão de Diouana, usa. O escritor de cartas público senta em uma mesa próxima e ordena ao garoto que tire a máscara africana, uma ordem que sugere a rejeição aos valores africanos em favor do letramento. As várias cenas da escola local, que também chama atenção para a crescente classe letrada do Senegal, revela a presença exclusiva de garotos. De fato, nenhuma mulher senegalesa é vista lendo no filme, enquanto os homens são frequentemente vistos com um livro em suas mãos. Alfabetização se torna, assim, identificada com uma dicotomia entre homem e mulher. O fato de que as mulheres continuam analfabetas tem resultados desastrosos para Diouana. O laço entre mãe e filha, uma firme ligação no filme, é brutalmente rompido quando Diouana vai para a França. O contato entre as duas mulheres requer a escrita, quer dizer, a mediação masculina. Na França, a mulher francesa pode escrever e a mãe de Diouana pede-lhe que escreva da parte de Diouana porque aquela mulher "é também uma mãe".

Todavia, o marido responde e traduz o silêncio de Diouana em frases escritas. Ele escreve que ela está bem. Tal resposta, iniciada e composta inteiramente pelo seu patrão, levanta a suspeita de Diouana: ela não pode ler a carta de sua mãe, sua mãe não pode escrever e Diouana não pode escrever uma resposta. A carta desencadeia o drama final de Diouana enquanto ela percebe que não tem defesas: ela reflete.

            "Se eu pudesse escrever, contaria a eles..."

Sua morte se torna sua maneira de falar e escrever rebeldia, uma rebeldia expressa anteriormente em sua luta pela máscara.

As atitudes que precedem a morte de Diouana na França são repetidas em Dakar. Sua recusa do dinheiro é repetida por sua mãe. Sua recuperação da máscara é repetida pelo garotinho. O primeiro gesto rejeita a exploração econômica ocidental, o segundo reapropria a africana. De modo significante, três senegaleses analfabetos de três diferentes gerações carregam esses atos de protesto.

Entretanto, o tratamento masculino/feminino cai vítima de um preconceito tradicional. O filme traz a mulher se suicidando e o garoto perseguindo o francês: a mulher é a vítima, o garoto é o homem vingador do futuro. O filme usa a figura feminina como uma metáfora para o colonialismo. Sembene expõe alguns aspectos da opressão sexual mas não trata o sexismo em si como uma realidade política que pode ser abordada, combatida e transformada. Ao usar artisticamente a mulher como uma metáfora para resolver alguns conflitos básicos, mesmo assim, o diretor é pego por contradições mal resolvidas. E certas questões fundamentais do feminismo africano, como a poligamia, não são tocadas neste filme. Em "La noire de..." a exploração colonial atravessa a oposição masculino/feminino e é vista operando por trás do disfarce de uma causa política, como as Grandes Guerras, ou de uma promessa de liberdade para participar em uma sociedade de consumo. O filme funciona melhor como um questionamento militante ao neocolonialismo em suas variadas formas.


Notas

1. Conforme afirmação do próprio Sembene sobre compensação financeira da França em uma entrevista com Jeune Afrique (27 January 1973):

    Jeune Afrique: Você recebe uma pensão?
    Sembene: De quem?
    Jeune Afrique: Do exército francês.
    Sembene: Não e eu não quero uma.

2. "Michael Crowder in Senegal: A Study of French Assimilation Policy" escreve:

    “Torna-se cada vez mais irritante para os senegaleses em Dakar, onde o desemprego é crescente, ver europeus fazendo trabalhos que poderiam ser facilmente executados por eles mesmos" (p. 85)

É significante que a Delegação Senegalesa para as Nações Unidas em Nova Iorque tenha sido extremamente desinteressada ou incapaz de dar qualquer informação sobre Sembene. Quando expressei espanto diante do fato de que o oficial senegalês no telefone não havia visto nenhum de seus filmes, ele respondeu prontamente:

            "Não perdi nada não vendo seus filmes."

Por favor, semeie! Semear é muito importante para que outras pessoas tenham acesso ao filme.